A undécima hora de Bolsonaro e a insônia dos malfeitores
Uma vez condenados, terão outras noites - ainda mais terríveis - para sofrer, chorar e, talvez, se arrepender
O relógio “tique-taqueia” implacável para quem conta as horas ao contrário, querendo os segundos congelados. Na terça‑feira, 2 de setembro, começa o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus do chamado “núcleo 1” no STF, acusados de arquitetar uma tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
O ministro Alexandre de Moraes abrirá o rito com a leitura do relatório, certamente pesado e com o veredicto praticamente antecipado. Atacar o Estado de Direito, participar de organização criminosa armada, planejar golpe de Estado, provocar dano qualificado e vandalizar o patrimônio tombado: o cardápio de acusações é bastante amplo.
Em cada sessão, a acusação – representada pelo procurador‑geral da República Paulo Gonet – defenderá a condenação. Depois, virão as sustentações das defesas. Por fim, os ministros votarão na ordem: Moraes, Dino, Fux, Cármen Lúcia e Zanin. Três votos são o gatilho, ou melhor, a guilhotina da condenação. O veredito deve sair até 12 de setembro.
Fim da novela
Chegamos, assim, à undécima hora de Bolsonaro. Ao instante em que a balança pende para o inevitável. Quem se aventurou a destruir as instituições democráticas, agora sente o peso do destino. A insônia e a inapetência vêm não por remorso, mas pelo medo da condenação e do futuro. O imorrível, imbrochável e incomível sente cada gota de suor.
Relembro, por acaso, minhas próprias noites de infância e adolescência, quando tentava, temeroso pelo boletim de fim de ano, diante das péssimas provas, fruto da malandragem anterior, dormir. O coração acelerado, o medo incontrolável, a certeza das recuperações. Eu sabia o que me aguardava e que o castigo que não poderia mais ser evitado.
Aquele frio na barriga chegava a doer. O arrependimento de não ter estudado o mínimo necessário, a vontade de voltar atrás e a esperança desesperada. Não era só um boletim cheio de notas vermelhas. Era uma sentença condenatória de quem desconsiderou o esforço dos pais. Eu ali, metade em pânico, metade derrotado, igualzinho a estes réus.
Anos de solidão
Esses senhores não são crianças com más notas. São figuras que planejaram quebrar a democracia e impulsionaram as invasões aos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. Denúncias e delações; provas materiais e testemunhais; fartos indícios que detalharam os planos e “decretos” golpistas, sob a liderança ou aquiescência de Jair Bolsonaro.
Eles, que ousaram abrir caminho para o caos, agora enfrentam o medo real. A insônia deles ecoa a minha infância, sim, mas em proporções ainda mais trágicas: o erro infantil foi transformado em atentado grave e em conserto impossível – não há recuperação. Eles sabem que as falhas não se apagam. E o remorso pode até vir, mas é tarde demais.
O tribunal, os holofotes, as capas pretas e o indefectível Xandão. Tudo à vista. Tudo ao vivo. É a undécima hora. O juízo final. O eco da minha infância. Vislumbro as noites desse pessoal. Sei bem como serão. Uma vez condenados, terão outras – ainda mais terríveis – para sofrer, chorar e, talvez, se arrepender. Eu não queria estar na pele deles.
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Comentários (6)
Junior
01.09.2025 05:38Acho que se arrependem de ter trabalhado para a retirada de assinaturas da lava toga, agora provém o próprio veneno que deixaram ser produzido...vão chorar na cama que é lugar quente.
Eliane ☆
31.08.2025 17:24Então, Ricardo Kertzman, continue abordando o assunto que você 'quiser ',da forma como achar melhor. Até aqui têm pessoas querendo escolher o "prato",pensando que aqui é um restaurante.
Annie
31.08.2025 12:22Tic toc Bumm! Bem feito acho pouco para o minto esse que ajudou a acabar com a lava jato quer era uma cha.
Antonio Caio Alcântara Botellho
31.08.2025 11:34Este sujeito é um cagão. Jamais vai publicar alguma coisa em relação a Vaza Toga. Se publicar peço desculpa.
Ita
31.08.2025 11:32Quem desmontou a CPI da Lava Toga? A quem interessava diretamente não ferir ou proteger certos Ministros do STF? Alguém ainda se lembra?
Carlos Augusto Lins Brito Da Silva
31.08.2025 10:48Oi Ricardo! Não vou discordar da sua análise, mas que tal fazer uma análise também sobre a Vaza Toga, que já está na Fase 3 de divulgação, com várias provas dos desmandos de ministro do STF, com o seu Gabinete do Ódio, inclusive festejando a vitória do “descondenado”. Fico no aguardo.