Saiba como está o jogo da política para 2022

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Saiba como está o jogo da política para 2022

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Redação O Antagonista
11 minutos de leitura 06.03.2021 14:00 comentários
Brasil

Saiba como está o jogo da política para 2022

Mesmo em meio à pandemia da Covid-19 -- e até em razão dela --, o mundo político só pensa em 2022. Jair Bolsonaro, ainda em busca de um partido para tentar a reeleição, acredita ter garantido, pelo menos, os apoios...

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Saiba como está o jogo da política para 2022
Fotos: Agência Brasil, Adriano Machado/Crusoé, Sandra Blaser/World Economic Forum, Rodrigo Coelho/Flickr, Isac Nóbrega/PR - Montagem: Rodrigo Freitas/ O Antagonista

Mesmo em meio à pandemia da Covid-19 — e até em razão dela –, o mundo político só pensa em 2022.

Jair Bolsonaro, ainda em busca de um partido para tentar a reeleição, acredita ter garantido, pelo menos, os apoios do Progressistas, de Ciro Nogueira; do PL, de Valdemar Costa Neto; e do Republicanos, ligado à Igreja Universal. No caso desses três partidos, o casamento parece sem qualquer possibilidade de divórcio, diante dos laços que foram formados.

Partidos como MDB e PSD, de Gilberto Kassab, por sua vez, que têm pés no governo, mas se vendem como independentes, vão esperar o cenário clarear melhor.

Um político que passou mais de 15 anos no Congresso, fez uma ponderação a O Antagonista: “Os partidos que hoje estão com Bolsonaro perceberam que nunca tiveram um presidente tão enfraquecido e manipulável. Vão chupar o palito do picolé até o limite do pragmatismo, mas, se virem que a aposta será errada, pularão fora a tempo”.

Na oposição e no tal “centro democrático”, as conversas estão fervilhando nos bastidores, mas não há, até aqui, qualquer sinalização de uma possível unidade. Os nomes colocados ainda estão sendo testados e podem surgir surpresas, como a empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza, ou o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD).

O Antagonista ouviu nos últimos dias diversos atores políticos, principalmente os que estão envolvidos diretamente na tentativa de construção de uma ainda improvável “frente ampla” contra Jair Bolsonaro. Eles evitam dizer que Bolsonaro é, hoje, “favorito”, mas todos reconhecem que, se a fragmentação persistir, o atual presidente “largaria na frente, não por mérito próprio, mas por incompetência dos demais”, definiu um deles.

Ainda que o “Centrão raiz” continue dando sustentabilidade ao governo, como agradecimento aos cargos e emendas que está recebendo como nunca, a continuidade da pandemia, o destempero do presidente e os rolos envolvendo seus filhos, além do claro estelionato eleitoral, deixam o jogo em aberto. Caciques partidários dessa base fisiológica do governo admitem não ter dúvidas de que Bolsonaro chegará a 2022 “bastante desgastado”, mas torcem para que não surja uma alternativa viável e para que seja reeleito impondo a narrativa de que “não há ninguém melhor que ele”.

No centro, incluindo a centro-esquerda, há um consenso de que, isolando o PT, será preciso apresentar “uma candidatura da esperança, da melhoria de vida, da estabilidade, da paz e da harmonia”. O desafio, defendem os principais nomes, será ajustar as afinidades, aparar as vaidades, resolver as diferenças e “não cair no jogo do Bolsonaro”, qual seja: a política do confronto, na qual o PT poderia ressurgir.

Com pesquisas em andamento, nomes do centro esperam constatar em breve que boa parte da população “cansou dos extremismos” e de “pautas ideológicas” e quer voltar a ver a política como “solução dos problemas” — uma amostra disso foi dada nas eleições municipais do ano passado. Em eleições majoritárias, argumentam os mais experientes, não se escolhe “o candidato ideal”, mas “o preferido entre as opções postas”. Alguém poderá ganhar de Bolsonaro, portanto, se conseguir convencer o eleitorado de que pode fazer melhor que ele.

Ainda sobre as pesquisas que estão sendo encomendadas por partidos políticos do centro, há uma torcida para que o teto da aprovação de Jair Bolsonaro não passe, nos próximos meses, de 35% ou 40%. “Nosso maior desafio será, sem dúvidas, unir o centro. Se o centro conseguir se unir em torno dos moderados, que acreditamos ser um grupo crescente, vamos ao segundo turno com chances de vitória. Se não conseguirmos unir o centro e nos pulverizarmos em quatro, cinco candidaturas, a esquerda ganhará espaço e repetiremos 2018”, resumiu um dos nomes do centro.

Leia a situação política de cada um dos possíveis candidatos até aqui (em ordem alfabética):

CIRO GOMES

O PDT já lançou o cearense como candidato à Presidência no ano que vem — em se confirmando, será sua quarta candidatura presidencial. Ciro está batendo à porta de outros partidos e querendo “falar com todo mundo”, menos com o PT, de quem se consolidou como adversário nas últimas eleições.

Embora de esquerda, o pedetista é encarado como opção do “centro democrático”. Entre os atores políticos envolvidos nas conversas, porém, predomina a avaliação de que Ciro, por mais experiente que seja politicamente, “envelheceu sem moderação” e seu perfil truculento e impetuoso espantaria o “voto moderado”, por dificultar um contraponto a Jair Bolsonaro. “Não será uma eleição para ganhar na porrada. Se mordermos a isca e baixarmos o nível, Bolsonaro ganha, porque ninguém consegue ser mais baixo que o atual presidente”, disse a O Antagonista uma liderança partidária.

A opinião é que Ciro teria dificuldade de chegar ao segundo turno, pois o PT, que muito dificilmente topará compor com o restante da esquerda, sempre rouba votos. De toda forma, admite-se que o cearense se apresentaria como nome bastante competitivo em eventual segundo turno com Bolsonaro, pois, ainda como hipótese, poderia conseguir reunir toda a esquerda na reta final, com mais facilidade que o PT, por exemplo. Há quem jure que Ciro “é o maior temor de Bolsonaro”. “Pode perceber que a família Bolsonaro evita rivalizar com ele”, disse um ator político.

JOÃO DORIA

O governador de São Paulo tem encontrado enorme dificuldade em se viabilizar, a começar no PSDB. Entre tucanos, acredita-se que ele terá até outubro deste ano para tentar mudar a situação, buscando se recompor com a executiva nacional e a bancada do partido. Caso contrário, seu projeto presidencial, pelo menos no PSDB, minguará. O grupo de Aécio Neves, seu principal rival interno, trabalha pela realização de prévias para a escolha do candidato ao Planalto, podendo, assim, reforçar nomes como o de Eduardo Leite, governador do Rio Grande do Sul.

Embora tenha assumido protagonismo na conquista da Coronavac, a primeira vacina contra a Covid-19 a ser aplicada no Brasil, atores políticos veem dificuldade de Doria em se desgarrar do “BolsoDoria” de 2018 e em se nacionalizar. A despeito de todo o esforço recente, com reuniões secretas e muitas aparições na mídia, Doria também não conseguiu, pelo menos da forma como imaginava, compor com outros governadores, que passaram a vê-lo como alguém sempre em busca de protagonismo. Os mais experientes acrescentam que o tucano “queima a largada e não preenche as etapas da política”.

LUCIANO HUCK

O apresentador de TV ainda não decidiu se será candidato à Presidência da República. Como em 2018, ele tem optado pela discrição e pelo suspense, enquanto, nos bastidores, conversa com lideranças do centro e, principalmente, da centro-esquerda. Huck intensificou sua participação nas redes sociais e, em meio à pandemia, passou a se contrapor claramente ao atual governo. A indefinição, ainda que justificada por cautela ou estratégia, irrita atores políticos mais afoitos, que dizem que “o tapete vermelho não será estendido na hora que ele quiser”.

Huck sente a pressão de dois lados. O primeiro é o da Globo, que tem dado ultimatos ao seu funcionário, principalmente após o anúncio da saída do Faustão. O outro é o da própria política: ele precisará escolher um partido e formar uma base. Dos nomes colocados, admitem caciques partidários, Huck seria o que mais se encaixaria na “narrativa da esperança”, mas eles fazem questão de afirmar que “entrar na casa das pessoas como apresentador é bem diferente de pedir votos como candidato”. Há ainda duas questões em aberto: o impacto de ser visto como “o nome da Globo” e o desempenho de outsiders em 2022.

LUIZ HENRIQUE MANDETTA

O DEM decidiu soltar a corda de Luiz Henrique Mandetta e ver até aonde vai o ex-ministro da Saúde. Por ora, políticos mais tarimbados não conseguem ver “envergadura” em uma possível candidatura do ex-deputado do Mato Grosso do Sul, mas reconhecem que a ideia pode dar certo, a depender da capacidade de ele “agregar forças políticas” e, principalmente, de se colocar para o eleitorado como alternativa real.

O desastre da condução da pandemia por Jair Bolsonaro poderia reforçar a imagem de Mandetta como “homem da ciência, homem do SUS”. O entorno dele, no entanto, sabe que o ex-ministro apanharia e muito de bolsonaristas, que já culpam Mandetta pelo mantra do “fique em casa” e pelas consequências econômicas do necessário isolamento social. “O ‘fique em casa’ foi propagado dentro de contexto, mas, se a candidatura se viabilizar, não vamos ficar rebatendo, vamos focar em todos os acertos dele, em todas as afirmações que se confirmaram, e não foram poucas”, disse a O Antagonista um demista.

No meio político, há quem não aposte em Mandetta e avalie que ele esteja somente tentando se cacifar como vice em alguma chapa. “Acho difícil o DEM se desgarrar do Bolsonaro. Até porque importantes nomes da legenda, como Ronaldo Caiado e Onyx Lorenzoni, estão lá coladinhos no presidente. E quem era contra, como o Rodrigo Maia, foi estraçalhado”, comentou um dos nomes do centro. Os mais pragmáticos acreditam que pode haver um “cavalo de pau” se o ex-ministro da Saúde se mostrar viável.

LULA/FERNANDO HADDAD/GUILHERME BOULOS

Lula já mandou seu poste Fernando Haddad começar a rodar o Brasil em campanha, de novo. Hoje, o ex-presidiário Lula, condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro, está inelegível, mas tudo pode acontecer até 2022. Se puder, claro, Lula será candidato. Uma importante liderança política disse a O Antagonista não acreditar que “o STF vá longe demais”, a ponto de dar o aval para o petista tentar voltar ao Planalto.

Com Haddad sujeitando-se ao papel de poste mais uma vez, o PSOL insistirá em Guilherme Boulos, agora como novo queridinho da esquerda e fortalecido pela façanha de ter chegado ao segundo turno com Bruno Covas (PSDB) na disputa pela Prefeitura de São Paulo, em 2020. No “centro democrático”, acredita-se que Boulos pode até não ter força para ir a um segundo turno, “mas a tendência é que tenha mais votos que o PT”, repetindo o cenário na capital paulista no ano passado, quando Boulos superou o petista Jilmar Tatto.

Entre os petistas, óbvio, há a esperança de que a polarização de 2018 se repita e o candidato do partido possa superar o ainda forte antipetismo. Se não der certo, o PT aposta que a narrativa de oposição a Jair Bolsonaro poderá ser suficiente para eleger novamente um bom número de deputados — em 2018, PT e PSL, então legenda de Bolsonaro, formaram as maiores bancadas da Câmara.

SERGIO MORO

O ex-juiz de Curitiba é o potencial candidato ao Planalto mais odiado pelos poderosos de Brasília. Na surdina ou de maneira escancarada, o mundo político se mexe — e não é de hoje — para aniquilar qualquer possibilidade de candidatura presidencial dele. Alguns torcem abertamente para que o principal símbolo da Lava Jato tente uma vaga ao Senado. Um presidente de partido admitiu a O Antagonista que Moro é repelido porque temem que ele “faça no comando do país o que fez na primeira instância, colocando todo mundo na guilhotina”.

Moro sabe que teria o apoio maciço da sociedade e, mesmo sem lastro no mundo político, poderia ter abrigo em legendas como o Podemos — que não esconde o desejo de recebê-lo — para se lançar ao Planalto. O voo solo — do ponto de vista estritamente político, claro — encontraria, no entanto, forte resistência na esquerda e no bolsonarismo, que hoje representam, juntos, um piso de pelo menos 40% do eleitorado.

Um cacique partidário, duvidando da capacidade política de Moro, disse a O Antagonista que “a toga dele era grossa, mas sua participação no governo Bolsonaro mostrou ser uma pessoa que nunca tomou sol e, quando tomou, ficou todo vermelho”. Apesar de tamanha rejeição, há no “centro democrático” quem acredite que, mesmo que Moro não seja candidato, um gesto de apoio do ex-juiz será fundamental e até decisivo para viabilizar uma opção fora dos extremos.

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