Roteiro de Lula se repete com Bolsonaro
Ex-presidente vai para a cadeia por crimes diferentes, mas da mesma forma que o petista foi encarcerado: politicamente vivo
É um déjà-vu com sinal ideológico invertido. A esquerda brasileira celebra a condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado da mesma forma que a direita celebrou a ida de Lula para a cadeia por crimes de corrupção, em 2018.
Os apoiadores de Bolsonaro reclamam do Supremo Tribunal Federal (STF), da mesma forma que os torcedores de Lula protestavam contra Sergio Moro, fingindo que a sentença de prisão do juiz de primeira instância não tinha sido referendada (e até aumentada) por desembargadores.
Assim como os bolsonaristas reclamam da imprensa hoje, os lulistas também reclamaram dos jornalistas em 2018, por supostamente terem compactuado com os alegados abusos da Operação Lava Jato.
E é esse tipo de torcida apaixonada que mantém Bolsonaro vivo politicamente, com a prerrogativa de escolher o adversário de Lula ou quem ele indique para a eleição presidencial de 2026, da mesma forma que ocorreu em 2018, com o detalhe de que Lula sustentou sua candidatura, em desafio ao Judiciário, até o último momento possível, o que favoreceu Bolsonaro na disputa com um detento.
Pouco a celebrar
A verdade é que o país tem pouco a celebrar hoje, quando condena seu primeiro ex-presidente por tentativa de golpe de Estado, assim como teve pouco a celebrar quando condenou seu primeiro ex-presidente por crimes de corrupção.
É bom que a lei esteja sendo cumprida, ainda que por linhas questionáveis e com consequências deletérias para o próprio STF, mas os fatos que levaram às duas condenações são lamentáveis e motivo de vergonha para o país.
Pior: nada garante que essa nova sentença seja mantida intacta nos próximos meses ou anos, como mostrou o caso de um ex-presidente que voltou ao Palácio do Planalto após passar meses preso.
Página virada?
O presidente do STF, Luís Roberto Barroso, compareceu ao final do julgamento de Bolsonaro, um dos muitos gestos que não deveria ter feito ao longo desse processo, e discursou, para dizer que deseja “muito sinceramente que estejamos virando uma página da vida brasileira“.
Mas esse tipo de página não se vira no Brasil. Não apenas porque Bolsonaro e Lula seguiram tendo apoio popular após suas condenações, o que mostra um descolamento de parte relevante da população com o sistema de justiça, mas também porque as instituições da República não permitem que essas páginas sejam viradas.
No caso de Lula, foi o Supremo que desvirou a página. No caso de Bolsonaro, é o Congresso Nacional que ameaça fazê-lo, numa sucessão de anistias de que alguns dos homens públicos do país chegam a se orgulhar e a exaltar como uma virtude do Brasil.
A reabilitação política de Lula sustenta a esperança na reabilitação política de Bolsonaro, sempre em nome do entendimento e da harmonia entre a elite política. E, infelizmente, não há motivo para acreditar que essa roleta da impunidade vá parar de girar tão cedo.
Leia mais: O Brasil cansou de Lula e Bolsonaro
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Comentários (1)
MARCOS
14.09.2025 18:38JUSTIÇA????NÃO EXISTE NO BRASIL. CRIMINOSOS SÃO SOLTOS E INOCENTES SÃO PRESOS. QUE PORRA DE JUSTIÇA É ESSA????