Lula reeleito: péssimo para a economia, melhor para a democracia
Continuarei considerando Lula e o PT profundamente nocivos ao desenvolvimento econômico e institucional brasileiro
O petista Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República pela quarta vez, com 64.256.232 votos, ou 51,79% dos votos válidos, contra 59.826.041 votos, ou 48,21%, de Flávio Bolsonaro. Uma diferença de pouco mais de 4,4 milhões de votos em um universo de quase 159 milhões de eleitores. O chefão do PT, que havia perdido o primeiro turno para o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso domiciliarmente por tentativa de Golpe de Estado e outros crimes correlatos, conseguiu uma virada histórica e governará o Brasil até dezembro de 2030, quando completará, somados os quatro mandatos, 16 anos na Presidência da República.
Para quem, como eu, considera o lulopetismo um desastre econômico, político e administrativo, a notícia está longe de ser boa. Afinal, são quase 18 anos de governos petistas, consideradas também as administrações de Dilma Rousseff, nossa esterna estoquista de vento, marcados por escândalos de corrupção, aparelhamento da máquina pública, irresponsabilidade fiscal e intervenções econômicas cujas consequências o país conhece muito bem. Ainda que seja necessário reconhecer os bons resultados de determinados períodos, sobretudo durante os dois primeiros governos Lula, o balanço histórico está longe de justificar qualquer entusiasmo com mais quatro anos de petismo.
Por outro lado, a derrota de Flávio Bolsonaro, representante de um grupo político que passou os últimos anos atacando instituições, desacreditando o processo eleitoral e relativizando uma tentativa de ruptura democrática, oferece algum alívio. Não porque Lula seja exemplo de apreço às instituições, muito menos porque o PT tenha abandonado suas conhecidas pretensões hegemônicas, mas porque a eleição de 2026 produziu uma combinação bastante peculiar: o presidente venceu, enquanto a direita conquistou uma força parlamentar capaz de impor limites reais ao seu governo.
O Congresso como contrapeso
O PL, partido de Jair e Flávio Bolsonaro, elegeu 121 deputados federais, a maior bancada da próxima legislatura, e terá 29 dos 81 senadores. Somados aos dez deputados e três senadores do Novo, serão 131 parlamentares na Câmara e 32 no Senado identificados com uma oposição mais consistente ao lulopetismo. Enquanto isso, o PT terá apenas 70 deputados e dez senadores. A federação formada por PT, PCdoB e PV contará com 88 representantes na Câmara, muito distante dos 257 votos necessários para formar maioria absoluta.
Os números são ainda mais expressivos quando se considera o conjunto do Congresso. Levantamento publicado pela Folha de S.Paulo aponta que aproximadamente 59% dos deputados e 64% dos senadores eleitos pertencem a partidos classificados no campo da direita e da centro-direita. Evidentemente, isso não significa que todos atuarão como opositores, sobretudo porque o chamado Centrão possui uma conhecida capacidade de adaptação às conveniências do poder. Mas significa que Lula terá enormes dificuldades para impor sua agenda sem negociar, recuar e, principalmente, respeitar uma correlação de forças que lhe é amplamente desfavorável.
Na economia, essa composição poderá representar um freio importante à conhecida disposição petista de aumentar despesas, ampliar a presença estatal e tratar o equilíbrio fiscal como uma preocupação secundária. O Congresso não controla sozinho o Orçamento nem impede automaticamente a expansão dos gastos públicos, mas possui instrumentos para rejeitar propostas, modificar projetos, fiscalizar despesas e dificultar iniciativas que agravem as contas nacionais. Se exercer essas prerrogativas com responsabilidade, poderá contribuir para evitar que os próximos quatro anos aprofundem os desequilíbrios fiscais brasileiros.
A conta dos governos petistas
Os números ajudam a compreender as preocupações. Segundo o IBGE, depois de crescer expressivos 7,5% em 2010, último ano do segundo mandato de Lula, o PIB brasileiro perdeu força durante o governo Dilma, avançando apenas 0,5% em 2014 e recuando 3,3% em 2015 e outros 4% em 2016, conforme a série histórica revisada. A inflação chegou a 10,67% em 2015. Já no terceiro mandato de Lula, a economia cresceu 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. Resultados positivos, é verdade, acompanhados, porém, de uma deterioração preocupante das contas públicas.
Segundo o Banco Central, em agosto de 2026 a dívida bruta brasileira alcançou R$ 11,1 trilhões, equivalentes a 82,9% do PIB. Nos 12 meses anteriores, o setor público acumulou R$ 1,18 trilhão em juros nominais e um déficit nominal de R$ 1,26 trilhão, correspondente a 9,48% de tudo o que o país produz em um ano. Para completar, o déficit primário acumulado chegou a R$ 82,1 bilhões. Ainda que parte desses resultados decorra dos juros elevados e de problemas estruturais anteriores ao atual governo, são números incompatíveis com a tranquilidade fiscal que o presidente e sua equipe econômica procuram transmitir.
É nesse contexto que a composição do novo Congresso ganha importância. Lula continuará dispondo da caneta presidencial, dos ministérios, das estatais e de instrumentos poderosos de negociação política, mas encontrará um Parlamento menos disposto a aceitar passivamente suas iniciativas. Sobretudo no Senado, onde o PL terá 29 cadeiras, contra apenas dez do PT, e onde a direita e a centro-direita representam aproximadamente dois terços dos parlamentares eleitos. Uma correlação de forças que poderá dificultar aventuras econômicas, nomeações políticas e tentativas de ampliar ainda mais o poder do Executivo.
O Supremo e a democracia
Há ainda uma questão institucional particularmente relevante. Cabe ao presidente da República indicar os ministros do Supremo Tribunal Federal, mas compete ao Senado aprová-los, por maioria absoluta de seus integrantes, após sabatina. São necessários, portanto, pelo menos 41 votos favoráveis. Com uma bancada petista de apenas dez senadores e uma oposição fortalecida, Lula terá dificuldades consideráveis para emplacar nomes excessivamente identificados com seu partido, sem reconhecida qualificação jurídica ou comprometidos com uma atuação ideológica no tribunal.
Depois de tantos episódios envolvendo ministros do STF, de decisões controversas, excessos de protagonismo político e questionamentos sobre os limites de atuação da Corte, seria extremamente saudável que o Senado recuperasse sua função constitucional de examinar rigorosamente as indicações presidenciais. Lula deverá ser obrigado a procurar juristas tecnicamente preparados, equilibrados, independentes e capazes de conquistar a confiança de parlamentares que não compartilham suas convicções políticas. Evidentemente, a maioria conservadora não assegura esse resultado, mas cria condições para que indicações inadequadas sejam rejeitadas.
Por fim, há o aspecto democrático propriamente dito. Flávio Bolsonaro recebeu quase 60 milhões de votos, uma votação extraordinária, que demonstra a força eleitoral do bolsonarismo e impede qualquer tentativa séria de considerá-lo politicamente derrotado. Entretanto, a vitória de Lula afasta, ao menos por enquanto, o retorno ao Palácio do Planalto de um grupo político associado aos ataques às instituições e à tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022. Ao mesmo tempo, a expressiva bancada conservadora eleita pelos brasileiros poderá impedir que o petismo transforme sua vitória presidencial em autorização para governar sem limites.
Encerro
Continuarei considerando Lula e o PT profundamente nocivos ao desenvolvimento econômico e institucional brasileiro. Mas, diante das alternativas apresentadas ao eleitorado e, sobretudo, da composição do Congresso que assumirá em fevereiro de 2027, consigo enxergar na eleição de domingo um resultado menos desastroso do que imaginava. Lula terá mais quatro anos de poder, mas encontrará pela frente uma oposição parlamentar numerosa, legitimada pelas urnas e com instrumentos constitucionais para contê-lo. Oxalá saiba utilizá-los com responsabilidade. Mas duvido.
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Comentários (1)
PAULO SÉRGIO FRANÇA DE ALBUQUERQUE LIMA
26.10.2026 12:19Não creio que a vitória do Lula seja tão melhor para a "democracia" que temos! STF ignorando a CF e fazendo o que bem entende. Agora teremos mais 4 ministros que serão escolhidos a dedo pelo Lula entre seus amigos, como ele tem feito. Dane-se o saber juridico o que vale é ser amigo do "Rei"