Eu sou mais jornalista que muito ministro do STF é juiz
Na minha atividade profissional, respeito incondicionalmente as regras. Os supremos togados podem dizer o mesmo?
Eu não sou jornalista. Na verdade, nem mesmo formado sou. Fiz Comércio Exterior por mais de seis anos e não concluí o curso. Havia começado a trabalhar muito novo e se tornou incompatível estudar e trilhar a carreira de executivo em uma multinacional alemã. Décadas depois, já empresário, “caí sem paraquedas” no jornalismo, e deu certo. Tão certo que cá estou, no OA, e tenho o meu próprio veículo de comunicação, O Fator, parceiro de O Antagonista em Minas Gerais, depois de passagens por outras relevantes empresas do setor.
Se escrevo bem, o mérito é dos professores que tive. Se falo bem, o mérito é dos colegas que me inspiram. Se comento bem, o mérito é de quem nunca me tolheu. Meu único mérito é a coragem. Frank Sinatra canta em My Way: “For what is a man, what has he got? If not himself, then he has naught. To say the things he truly feels. And not the words of one who kneels” (Para o que é um homem, o que ele tem? Se não é para ser ele mesmo, então não tem nada. É para dizer aquilo que realmente sente, e não as palavras de quem se ajoelha).
Com quase 60 anos, nunca me senti tão feliz e realizado profissionalmente. Nunca trabalhei com tanta paixão e motivação. O tal “propósito” finalmente apareceu para mim, há quase dez anos, quando meu amigo de infância, Benny Cohen, à época no jornal Estado de Minas, dos Diários Associados, resolveu me “pinçar” no Facebook, me levar para o portal UAI, me explicar o que era um blog, me ensinar a escrever profissionalmente – mantendo minha identidade e forma coloquial – e me transformar no “jornalista” que sou.
Saudades do AI-5?
Dezessete anos depois de o próprio Supremo decidir que diploma não faz um jornalista e, principalmente, que o Estado não pode estabelecer qualquer tipo de licença prévia para a liberdade de informar, eis que os valentes “defensores da liberdade de imprensa”, Flávio Dino e Alexandre de Moraes, resolveram defender a rediscussão do assunto. A exigência, que agora desperta saudades nos ministros, nasceu no Decreto-Lei 972, de 1969, em plena ditadura militar, quando a censura era institucionalizada e os jornalistas, perseguidos.
O diploma é importante? Claro. A formação técnica é importante? Também. Eu seria provavelmente um jornalista melhor se tivesse estudado jornalismo. Mas daí a dizer que apenas quem possui diploma pode exercer a profissão, não dá. Até porque, o que exatamente transforma alguém em jornalista? Quatro anos numa faculdade ou dez, vinte, trinta apurando, entrevistando, escrevendo, investigando, publicando e respondendo pelo que publica? Um economista que cobre economia há 20 anos não é jornalista?
“Ah, Ricardo, mas a questão é sobre sigilo da fonte reivindicado por não jornalistas”. Ora, ser ou não ser jornalista formado não dignifica, muito menos rebaixa, quem trabalha com e no jornalismo, a um não jornalista. Até porque, garantias constitucionais e a própria liberdade de imprensa não existem apenas para jornalistas. Existem para o conjunto da sociedade. E isso está sendo relativizado, ou melhor, desconsiderado justamente por quem deveria ser o primeiro a compreendê-lo, defendê-lo e garanti-lo.
Diploma pra que mesmo?
Os capas-pretas querem combater picaretas, chantagistas e disseminadores de mentiras? Beleza. A legislação está cheia de instrumentos. Basta julgar conforme a lei. Uma calúnia continuará sendo calúnia, com ou sem diploma. Difamação continuará sendo difamação. Extorsão continuará sendo extorsão. Nenhuma mentira se tornará verdade por causa da colação de grau do mentiroso. O casuísmo, sim, é a verdadeira força motriz, a real motivação por trás dessa aberração que tentam Moraes e Dino ressuscitar.
Foi a partir de denúncias publicadas na imprensa, por jornalistas formados ou não, que atingiram em cheio a reputação de magistrados com sociedade oculta com banqueiros ladrões, com seus parentes firmando contratos multimilionários com o mesmo banqueiro ladrão ou colegas de toga utilizando veículo oficial em proveito próprio, que a ira suprema se voltou contra o jornalismo. Qualquer semelhança, aliás, com o natimorto Conselho Federal de Jornalismo, tentado por Lula em 2004, não é mera coincidência. É sanha totalitária mesmo.
Não tenho os diplomas, os títulos e o chamado “notório saber” que alguns ministros do STF têm. Não me refiro, obviamente, a Dias Toffoli, que foi reprovado em concursos para juiz de primeira instância. Como já admiti, nem sequer diploma – salvo o de conselheiro benemérito do Clube Atlético Mineiro – eu tenho. Mas, diante de tantos e lamentáveis fatos recentes, sinto-me no direito de me julgar melhor profissional que eles. Na minha atividade, respeito incondicionalmente as regras. E os supremos togados: podem dizer o mesmo?
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (1)
Andre Luis Dos Santos
20.08.2026 12:21Excelente Kertzman!