As falácias ardilosas e levianas de Lula sobre elites e Brasil
O discurso contra a elite funciona porque ainda encontra eco em parte da população. É um atalho retórico eficiente
Em mais uma de suas propagandas eleitorais disfarçadas de comunicado oficial à nação – utilizando não apenas a estrutura pública, como também o horário obrigatório de rádio e televisão, que custam caríssimo aos cofres públicos -, prática solenemente ignorada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), assim como são ignorados os inúmeros e corriqueiros atos de campanha travestidos de eventos públicos (inaugurações, anúncios, cerimônias), o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), anunciou, no domingo, 30 de novembro, a isenção do Imposto de Renda (IRPF) para quem ganha até cinco mil reais mensais.
Qualquer cidadão mais atento e não militante, ontem, se perguntou: qual a bendita necessidade, ou relevância, de se convocar uma cadeia nacional de rádio e televisão para isso? Nenhuma, é claro. Mas, para o marketing político do PT – e não apenas dele, por óbvio -, trata-se de uma oportunidade de ouro para transformar o presidente no autor exclusivo da benesse, e para apagar o debate técnico, a discussão orçamentária e qualquer noção que envolva responsabilidade fiscal ou aumento de impostos.
O problema, porém, vai além do uso indevido da máquina pública para fins eleitorais. O mais grave está na retórica reciclada e pra lá de mofada. Na ladainha ideológica que sempre reaparece quando é preciso mobilizar o eleitor pela via do ressentimento. Lula voltou a atacar a chamada “elite brasileira”, como se não integrasse, há décadas, exatamente esse grupo que finge combater. Reativou, mais uma vez, o velho conflito do “nós contra eles”, seu método eleitoral, que separa o país e alimenta o ódio, desde 2002.
Lula sendo Lula
Como de costume, distorceu a história, omitiu conveniências, falou em privilégios acumulados ao longo de cinco séculos, como se estivesse à margem desse sistema – mas não está nem nunca esteve, ao menos desde que entrou na política. Lula foi beneficiado pela elite do Judiciário quando lhe foi politicamente conveniente. É sustentado pela elite política que o cerca. Dialoga, negocia e se apoia na elite econômica sempre que o caixa aperta. Não vive nem jamais viveu, portanto, à margem do poder que cinicamente ataca em público e de que se aproveita no privado.
A pergunta, portanto, é clara e direta: Lula não integra o 1% mais rico do país? Não possui patrimônio relevante? Não mantém investimentos protegidos por mecanismos legais de blindagem fiscal? Não circula entre banqueiros, grandes empresários, empreiteiros, caciques partidários e membros das altas cortes? A resposta é conhecida. Mas ele prefere manter o teatrinho mequetrefe que tanto seduz e encanta os desavisados.
O discurso contra a elite funciona porque ainda encontra eco em parte da população. É um atalho retórico eficiente, pois desloca a atenção dos erros do governo, cria um inimigo abstrato e vende a ilusão de que o poder fala em nome dos “do andar de baixo”. Na prática, faz exatamente o contrário. Governa com os de cima, negocia com os de cima, protege interesses dos de cima enquanto aponta o dedo para um espelho que finge não enxergar.
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Comentários (1)
Pedro Boer
01.12.2025 21:20O Mujica pelo menos era coerente; andava de Fusca.