Wangari Maathai: “eu serei um beija-flor, farei o que puder”. A fábula que a queniana usava para explicar sua luta ambiental
Wangari Maathai, Nobel da Paz 2004, contava a fábula do beija-flor que apaga incêndio gota a gota: "farei o que puder". Conheça a ambientalista queniana
“Eu serei um beija-flor: farei o que puder.” A frase encerra uma fábula que a ambientalista queniana Wangari Maathai contava com frequência para explicar sua própria forma de agir diante de problemas enormes.
Quem foi Wangari Maathai?
Maathai nasceu no Quênia em 1940, tornou-se a primeira mulher da África Central e Oriental a obter um doutorado, em biologia, e passou a atuar em pautas ambientais e de direitos das mulheres a partir dos anos 1970.
Fundou o Movimento Cinturão Verde em 1977 e se tornou uma das vozes mais conhecidas internacionalmente sobre reflorestamento e ativismo ambiental africano, até sua morte em 2011.
Wangari Maathai was the first female professor in Kenya and the first African woman to be awarded the #NobelPeacePrize.
— The Nobel Prize (@NobelPrize) April 1, 2023
Born on this day, she was a committed environmentalist and founded the Green Belt Movement, which led to the planting of millions of trees. pic.twitter.com/1XOoMLHGJj
Qual é a fábula do beija-flor?
A história, de origem japonesa e adotada por Maathai como uma de suas favoritas, conta que uma floresta pegou fogo e todos os animais grandes ficaram paralisados, observando a destruição sem agir. Um pequeno beija-flor, porém, começou a voar até um riacho próximo, pegar uma gota d’água no bico e despejá-la sobre o incêndio, repetindo o gesto inúmeras vezes.
Quando os outros animais perguntaram por que ele fazia algo tão pequeno diante de um problema tão grande, o beija-flor respondeu apenas que estava fazendo o que podia. Maathai registrou essa fala em uma palestra gravada, hoje disponível publicamente, incluída no documentário “Dirt! The Movie”.
2004
ano em que Wangari Maathai se tornou a primeira mulher africana a receber o Prêmio Nobel da Paz, pelo trabalho à frente do Movimento Cinturão Verde.
O que é o Movimento Cinturão Verde?
O Movimento Cinturão Verde nasceu de uma constatação prática: mulheres queniana relatavam a Maathai dificuldades crescentes para conseguir lenha e água, ligadas ao desmatamento acelerado no país. A resposta foi organizar comunidades, sobretudo de mulheres, para plantar árvores em larga escala.
- Fundado por Maathai em 1977, no Quênia.
- Reúne o plantio de dezenas de milhões de árvores ao longo de décadas.
- Combinou reflorestamento com geração de renda e educação ambiental para comunidades locais.
Por que ela ganhou o Nobel da Paz?
O Comitê do Nobel reconheceu Maathai em 2004 por ligar diretamente questões ambientais, democracia e paz: para ela, disputas por recursos naturais escassos, como água e terra fértil, estavam entre as raízes de conflitos sociais que pareciam, à primeira vista, apenas políticos.
Foi a primeira mulher africana a receber o prêmio, marco que reforçou internacionalmente a ideia de que ativismo ambiental de base também é, em essência, um trabalho de construção de paz.

Por que a escala pequena da fábula importa?
O ponto central da história não é sugerir que gestos pequenos resolvem incêndios sozinhos, mas que a paralisia diante de um problema grande demais também tem custo: enquanto os animais maiores discutiam a proporção do desastre, o beija-flor já estava agindo.
A ideia de que sistemas que parecem imutáveis também já foram outra coisa, e podem voltar a mudar, é próxima do argumento que Ursula K. Le Guin defendeu em seu discurso sobre o papel da imaginação, ainda que partindo de um campo bem diferente do ambientalismo de Maathai.

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