Ursula K. Le Guin: “Seu poder parece inescapável; assim parecia o direito divino dos reis”. O discurso que marcou uma premiação
Ursula K. Le Guin e "seu poder parece inescapável": o discurso de 2014 sobre imaginação e mudança social
“Seu poder parece inescapável, mas também parecia o direito divino dos reis.” A frase é de Ursula K. Le Guin, escritora norte-americana de ficção científica e fantasia, num discurso de aceitação de prêmio em 2014.
Quem foi Ursula K. Le Guin?
Le Guin nasceu em 1929 e construiu uma das obras mais respeitadas da ficção científica e fantasia do século 20, autora de livros como A Mão Esquerda da Escuridão e o Ciclo Terramar, morrendo em 2018.
Além da ficção, ganhou reputação por reflexões sobre o papel da literatura na sociedade, tratando o gênero fantástico como ferramenta séria de pensamento, não como escapismo menor diante da literatura “realista”.
Em qual discurso ela disse essa frase?
A fala é do discurso de aceitação da Medalha por Contribuição Distinta às Letras Americanas, entregue a ela no National Book Awards de 2014, uma das premiações literárias mais tradicionais dos Estados Unidos.
Ursula K. Le Guin: "We will need writers who can remember freedom" pic.twitter.com/BHmgBXNd02
— Synekura Audio (@synekura_audio) January 4, 2026
No discurso, Le Guin comenta que sistemas que parecem permanentes e inevitáveis no presente já pareceram assim antes, em outras épocas, e ainda assim mudaram. A comparação usada por ela foi o direito divino dos reis, doutrina que por séculos pareceu inquestionável e hoje é vista como um capítulo encerrado da história política.
por séculos, pareceu ordem natural e inquestionável do mundo.
é estudado como capítulo histórico específico, não como lei permanente da realidade.
Qual era o argumento central do discurso, além dessa frase?
Le Guin defendia que nenhum arranjo de poder humano é permanente só porque parece sê-lo enquanto vigora, e que a resistência a esses arranjos, quando ela acontece, costuma nascer primeiro na imaginação, antes de virar mudança concreta.
- Sistemas de poder que parecem eternos no presente já mudaram antes, repetidas vezes ao longo da história.
- A capacidade de imaginar um arranjo diferente do atual é, para ela, um passo prático anterior a qualquer mudança real.
Como essa ideia aparece na própria ficção de Le Guin?
Em romances como A Mão Esquerda da Escuridão, Le Guin construía sociedades com estruturas sociais, de gênero e de poder radicalmente diferentes das conhecidas, não como enfeite narrativo, mas como experimento de pensamento: e se as coisas fossem organizadas de outro jeito?
Essa era, na prática, a mesma lógica do discurso de 2014 aplicada décadas antes em forma de romance: usar a ficção para tornar concebível um arranjo social diferente do presente, antes de discutir se ele seria desejável ou não.

Por que ela via a imaginação como faculdade prática?
Para uma autora que passou a carreira construindo mundos alternativos na ficção, imaginar não era fuga da realidade: era treino para conseguir sequer conceber que as coisas poderiam ser diferentes do que são hoje, condição necessária antes de qualquer mudança acontecer de fato.
O discurso completo, disponível na página oficial da autora, segue sendo referência sobre o papel de escritores e artistas dentro de qualquer sociedade, décadas depois de proferido. Essa mesma ideia de que arranjos aparentemente sólidos podem se revelar frágeis diante de mudanças inesperadas também está no centro da distinção entre frágil, robusto e antifrágil de Nassim Taleb.

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)