Uma turfeira seca pode virar combustível para incêndios e corrida tenta recuperar paisagem rara da Carolina do Norte
Projeto nos Inner Banks tenta reidratar solos orgânicos drenados antes que incêndios e decomposição eliminem estoques antigos de carbono
Nos Inner Banks da Carolina do Norte, cientistas e conservacionistas tentam recuperar turfeiras drenadas há décadas antes que mais carbono e solo desapareçam. Em uma área de cerca de 60 quilômetros quadrados perto de Belhaven, canais antigos reduziram o nível da água e deixaram camadas de turfa de até 5 metros vulneráveis à decomposição e a incêndios persistentes. A estratégia é simples na aparência: bloquear parte da drenagem e devolver água ao terreno.
Por que as turfeiras da Carolina do Norte são tão importantes?
Grande parte dessas áreas pertence a um tipo regional de zona úmida conhecido como pocosin, caracterizado por arbustos lenhosos, solos ácidos e depósitos de turfa acumulados durante milhares de anos. A península Albemarle-Pamlico concentra uma das maiores extensões desse ambiente nos Estados Unidos.
A turfa se forma quando matéria vegetal morta se acumula em terrenos encharcados onde a decomposição é lenta. Dessa maneira, grande quantidade de carbono permanece armazenada no solo. Quando o ambiente é drenado, oxigênio penetra nas camadas antes saturadas, acelerando a decomposição e liberando dióxido de carbono.
Como a drenagem transforma esse solo em combustível?
Canais escavados para agricultura e outros usos abaixam o lençol freático. Quando a turfa seca, deixa de funcionar como um material permanentemente úmido e passa a ser combustível rico em matéria orgânica. O fogo pode penetrar no solo e continuar queimando mesmo depois que as chamas superficiais diminuem.
Um incêndio ocorrido em 2008 no Pocosin Lakes National Wildlife Refuge permaneceu ativo durante meses, inclusive com combustão subterrânea. Em outros episódios, o fogo consumiu metros de turfa acumulada durante milhares de anos, causando perda de solo, emissão de carbono e rebaixamento permanente da superfície.
- Bloqueio De Canais De Drenagem;
- Elevação Do Lençol Freático;
- Reidratação Da Turfa;
- Recuperação Da Vegetação Nativa;
- Redução Do Risco De Incêndios Profundos.
Este vídeo mostra uma zona úmida protegida da Carolina do Norte e ajuda a visualizar ambientes relacionados aos pocosins.
Por que as turfeiras podem liberar tanto carbono quando secam?
O local em restauração próximo a Belhaven emite atualmente uma estimativa de cerca de 130 mil toneladas de dióxido de carbono por ano. Esse carbono vem principalmente da decomposição do solo orgânico drenado, que durante séculos ou milênios permaneceu preservado sob condições úmidas.
Estudos realizados em pocosins da Carolina do Norte indicaram que elevar o nível da água pode reduzir drasticamente as perdas de CO₂ do solo. A recuperação não recria imediatamente a turfa destruída, mas pode interromper parte da perda, restabelecer condições para novo acúmulo orgânico e diminuir a vulnerabilidade ao fogo.
Como os pesquisadores pretendem devolver água ao terreno?
A principal técnica é a restauração hidrológica. Estruturas são instaladas em canais de drenagem para retardar a saída da água e elevar gradualmente o lençol freático. O objetivo não é simplesmente inundar toda a paisagem, mas aproximar o sistema das condições naturais que permitiram o desenvolvimento da turfa.
A Associated Press acompanhou o projeto em Belhaven, onde cerca de 80 quilômetros de valas antigas cortam a propriedade. Cientistas também coletam amostras de solo e monitoram água, vegetação e emissões para medir os efeitos da recuperação.

O que já se sabe sobre a restauração das turfeiras?
A experiência regional oferece sinais positivos. No Pocosin Lakes National Wildlife Refuge, mais de 43 mil acres de turfeiras já passaram por restauração hidrológica. Outro projeto em Angola Bay recuperou mais de 6 mil acres, enquanto intervenções maiores continuam sendo planejadas para áreas atingidas por incêndios históricos.
A água também funciona como proteção contra fogo profundo. Turfa saturada pode sustentar queimadas superficiais da vegetação, mas tende a impedir que o fogo avance por metros de solo orgânico, reduzindo perdas de carbono e subsidência do terreno.
Por que recuperar essas áreas exige tanta urgência?
A turfa perdida em um grande incêndio não é recomposta em poucos anos. Ela resulta de milhares de anos de crescimento vegetal, deposição e decomposição lenta. Quando metros desse material queimam ou oxidam, parte do estoque de carbono desaparece numa escala de tempo praticamente irreversível para gerações humanas.
Além do carbono, pocosins oferecem habitat para aves migratórias, ursos-negros e outras espécies, ajudam a armazenar água e podem reduzir riscos de enchentes. Recuperar essas paisagens significa, portanto, evitar que uma zona úmida rara continue se transformando em solo seco, combustível e fonte persistente de emissões.
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