Josias Teófilo na Crusoé: Novos ares no cinema
Fjord pode marcar o início de uma virada cultural no cinema contemporâneo
Semana passada escrevi em Crusoé com surpresa sobre o filme Fjord, do diretor romeno Cristian Mungiu, que tive a oportunidade de ver na estreia, no 79º Festival de Cannes.
É que no filme há uma inversão do discurso convencional em festivais nos dias de hoje, em que os conservadores são invariavelmente os algozes e os progressistas, as vítimas.
Em Fjord, uma família religiosa se muda para uma cidade da Noruega e vive uma vida normal naquela cidade pacata.
A religiosidade da família, porém, começa a ser questionada pelos habitantes locais, e uma professora da escola resolve inquirir se a filha mais velha do casal chegou a receber punição física.
Ela responde que isso aconteceu, sim, uma vez. É o suficiente para que o conselho tutelar tire os filhos do casal. Até o bebê de colo é tirado da mãe, o que causa grande comoção.
O resto do filme é uma luta kafkiana na justiça para retomar a guarda dos filhos, o que desencadeia até manifestações de rua em favor do casal.
O filme tem no elenco Renata Reinsve, uma das atrizes mais relevantes da atualidade, e o diretor, Cristian Mungiu, já havia ganhado a Palma de Ouro com 4 meses, 3 semana e dois dias, um filme duríssimo sobre o aborto.
Mesmo assim, é extremamente sintomático que esse filme tenha recebido o prêmio máximo do festival. É um sinal dos tempos e do esgotamento da visão identitária no cinema, que até dia desses, nas premiações principais do Oscar desse ano, ainda era hegemônica.
Vale lembrar que, ano passado, O Agente Secreto, um filme 100% identitário, ganhou três prêmios em Cannes e foi até indicado ao Oscar em quatro categorias, mas não levou nada porque outros filmes identitários mais relevantes se destacaram.
Deve ser por isso que Fjord tem produzido curto-circuito na cabeça de tanta gente.
Alejandro G. Calvo, por exemplo, escreveu no X que não entende como Mungiu, um cineasta tão combativo, tinha se mostrado tão reacionário neste novo filme.
Kaleem Aftab, crítico de cinema da Rádio BBC de Londres, escreveu o seguinte, também no X: “A Palma de Ouro costumava criticar instituições tradicionais: famílias patriarcais, Estados autoritários, igrejas opressoras. Mas Cannes 2026 foi por outro caminho. Fjord critica o próprio progressismo…
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