Moraes pedia monitoramento das redes de Zambelli, diz Tagliaferro na CCJ
Ex-assessor do ministro no TSE foi ouvido pela comissão da Câmara no âmbito do processo de cassação da deputada federal licenciada
O ex-assessor do ministro Alexandre de Moraes Eduardo Tagliaferro disse nesta quarta-feira, 17, que quando era chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação no TSE, o ministro pedia à unidade um monitoramento das redes sociais da deputada federa licenciada Carla Zambelli (PL-SP).
“A deputada Carla Zambelli era um dos principais nomes solicitados pelo ministro Alexandre de Moraes, através dos seus juízes auxiliares, para que tudo que ela postasse fosse monitorado, feito o relatório, para que ele tomasse providências”, pontuou Tagliaferro.
“Ela e outras pessoas, era ela e mais três ou quatro pessoas, entre parlamentares e influencers, para que fosse feito como se fosse um pente-fino. Ficasse sempre alguém à disposição para estar observando as redes dela. Esse trabalho era feito por servidores do próprio gabinete”.
O ex-assessor foi ouvido nesta quarta pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, no processo em que o colegiado votará a aplicação da pena de perda de mandato contra Zambelli. A representação contra a parlamentar, que está presa na Itália, foi apresentada pela Mesa Diretora da Casa por causa da condenação dela por invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e inserção de documentos falsos.
“O que eu posso dizer e faço questão de dizer é que de fato existiu, claramente, uma perseguição, não só a ela, ela foi uma das principais personagens. Era uma perseguição ativa, constante, praticamente que semanalmente, duas, três, quatro vezes por semana eu recebia pedidos para que monitorasse, para que olhasse, tanto dela e qualquer coisa que envolvesse Carla Zambelli em rede social”, falou Tagliaferro.
“Muitas vezes não eram nem coisas produzidas por ela, mas estavam no nome dela, acabava caindo no foco e vinha para o departamento, para o gabinete. E reafirmo aqui que ela, de fato, juntamente com Allan dos Santos, com o [Rodrigo] Constantino, com o [Paulo] Figueredo e outros, foram pessoas que foram muito perseguidas. Não recebi, em momento algum, pedidos de qualquer outro tipo de polo político, centro ou esquerda”.
Zambelli também falou na reunião da CCJ e chegou a chorar. “Eu estou um pouco emocionada de tão agradecida que eu estou de você ter feito isso por mim, Tagliaferro. A coragem que você está tendo agora e do quanto você se expôs. Isso eu nunca mais vou esquecer na minha vida e eu vou rezar sempre por você”, declarou.
Denunciado pela PGR
Em 22 de agosto, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, denunciou Tagliaferro ao STF pelos crimes de violação de sigilo funcional, coação no curso do processo, obstrução de investigação de infração penal envolvendo organização criminosa e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
O ex-assessor é investigado pelo vazamento de mensagens trocadas entre servidores do gabinete de Moraes no STF e no TSE. Segundo a denúncia, entre maio e agosto do ano passado, Tagliaferro “violou sigilo funcional e embaraçou as investigações ao revelar à imprensa e tornar públicos diálogos sobre assuntos sigilosos que manteve com servidores do STF e do TSE na condição de assessor-chefe da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação”.
O procurador-geral também aponta que Tagliaferro cometeu coação no curso do processo ao ameaçar, em julho deste ano, após deixar o Brasil, revelar no exterior novas informações funcionais sigilosas obtidas no exercício de seu cargo.
Para a PGR, o ex-assessor de Moraes aderiu às condutas da organização criminosa investigada nos inquéritos da suposta trama golpista, das fake news e das milícias digitais, e selecionou diálogos para tentar interferir na credibilidade das investigações.
Após a denúncia, Moraes determinou que o Ministério da Justiça protocole pedido de extradição de Tagliaferro.
O Ministério da Justiça enviou o pedido ao Itamaraty, que deverá formalizá-lo junto ao governo da Itália, onde o ex-assessor reside.
Tanto ele como Zambelli falaram por videochamada na reunião da comissão hoje.
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