Condenado por homicídio diz à PF que se reunia com governador do MA
Gilbson Júnior também acusou sobrinho de Carlos Brandão de participar de “emboscada” ligada ao crime
Em depoimento à Polícia Federal (PF), Gilbson Júnior, condenado a 13 anos de prisão pelo assassinato de João Bosco Sobrinho em São Luís, no Maranhão, afirmou que o crime ocorreu por meio de uma “emboscada” que contou com a participação direta do presidente afastado do Tribunal de Contas do Maranhão (TCE-MA), Daniel Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão (MDB, foto).
Segundo Gilbson, ele frequentava o Palácio dos Leões, sede do governo estadual, para se reunir com Carlos Brandão e Daniel Brandão.
“Eu tinha uma vaga [de garagem] no Palácio dos Leões. Eu chegava, entrava, a vaga número 6”, disse.
No depoimento, prestado em 24 de junho do ano passado, Gilbson afirmou ainda que um desembargador teria feito um pagamento para que ele permanecesse em silêncio. O caso chegou ao STF em outubro do ano passado, e o ministro Flávio Dino foi sorteado para ser o relator.
Gilbson Júnior foi condenado por matar um homem em um centro comercial de São Luís, em agosto de 2022. Segundo decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), há indícios de que o homicídio esteja relacionado à divisão de propinas no estado.
Dino afasta sobrinho do governador
Na segunda, 17, Dino decidiu afastar, por 180 dias, Daniel Brandão do cargo de presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MA).
Na última semana, a PF identificou o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), como “provável líder” de uma organização criminosa que tentaria encobrir os responsáveis por esse homicídio.
De acordo com a PF, o homicídio teria ocorrido no contexto de um esquema envolvendo o pagamento de valores indevidos com recursos públicos.
A investigação sustenta que Gilbson César Soares Cutrim Júnior, posteriormente condenado pelo assassinato, exerceria uma função operacional no esquema e manteria interlocução direta com Daniel Brandão e com o próprio governador Carlos Brandão.
A PF o descreve como provável líder da organização investigada.
Na decisão desta segunda-feira, Dino também proíbe Daniel Brandão de ter acesso aos sistemas do Tribunal de Contas, frequentar eventos públicos como integrante da Corte, usar bens e serviços cedidos pelo Tribunal e mantar contato com Carlos Brandão, entre outros investigados pela PF nesse caso.
“As investigações trazem sérios elementos de prova de que, desde o momento do crime até os dias atuais, o grupo investigado tem lançado mão de todas as ações ao seu alcance para blindar a identificação de Daniel Brandão em tal investigação”, afirmou Dino na decisão.
As investigações sobre o assassinato
Segundo os investigadores, uma estrutura de operadores e intermediários teria passado a trabalhar para preservar os integrantes mais importantes e dificultar sua vinculação aos crimes investigados pela Polícia Federal.
O caso chegou às mãos de Dino após passar pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e depois de menções ao senador Weverton Rocha (PDT), que teria atuado para tentar encobrir o caso.
Um dos principais pontos destacados por Dino é justamente a suspeita de que a investigação original do homicídio tenha sido conduzida de maneira a deixar de fora personagens relevantes e ocultar o contexto político e financeiro que teria antecedido a morte de João Bosco.
A PF afirma que Daniel Brandão estava presente na reunião que antecedeu os disparos. Segundo o relato de Gilbson Júnior, Daniel teria convocado a reunião, realizada em 19 de agosto de 2022, na qual também estavam João Bosco e Werberth Macedo Castro. A discussão, conforme a PF, teria envolvido a divisão de valores decorrentes de pagamentos supostamente ilícitos. Daniel permaneceu no local durante parte da discussão e deixou o ambiente pouco antes dos disparos.
Para a PF, essa informação não foi adequadamente explorada pela Polícia Civil maranhense.
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