Plantaram Moraes, colheram Mendonça
Mesmo as mentiras mais descaradas devem circular, para serem desmentidas, mas Moraes abriu precedentes demais no STF e no TSE
A insegurança transmitida pelas medidas desesperadas de Lula na reta final do primeiro turno levou seu eleitorado a embarcar no vale-tudo. Mesmo depois de a GloboNews pedir desculpas e desmentir a informação de que haveria um movimento evangélico para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, os lulistas seguem afirmando que isso não é mentira.
Alvo da intriga, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tirar as fake news do ar. O ministro André Mendonça (à esquerda na foto) determinou a retirada de conteúdos em massa.
Esse não é o melhor caminho para lidar com mentiras, como O Antagonista diz desde que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes (à direita na foto) encampou, junto com Dias Toffoli, sua cruzada contra fake news, com um inquérito de quase oito anos.
A forma mais eficiente segue sendo a autorregulação dos ambientes de debate, como no caso das notas da comunidade do X, e, ainda que precise ser melhor calibrada em alguns casos, a Inteligência Artificial também se tornou uma ferramenta importante, para além de agências de checagem e o próprio noticiário, por mais que haja por aí agentes de confusão.
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Mentira escancarada
Uma mentira escancarada, como essa da padroeira, tem efeito mais limitado do que uma fake news mais sutil, porque só quem as dissemina acredita que ela está convencendo alguém.
Isso torna ainda pior a decisão de Mendonça, que já é ruim o bastante por ele ter sido indicado para o STF em tom de propaganda política por Jair Bolsonaro, algo que vai marcar toda sua carreira.
O STF e o TSE se degradaram absurdamente na última década, e praticamente todas as decisões de seus ministros são encaradas a partir da ótica política, ainda que sejam ou pareçam corretas.
Pesquisa suspensa
Foi outro ministro indicado por Bolsonaro, Kassio Nunes Marques, que suspendeu uma pesquisa da AtlasIntel que expunha o prejuízo do caso Dark Horse para a campanha de Flávio.
O ministro chegou a sinalizar com um desnecessário selo de acurácia para tentar justificar a intervenção, mas se limitou a conversar com representantes dos institutos e acabou sem conseguir justificar a intervenção na pesquisa, que acabou soando mesmo como intervenção política.
É nesse ambiente que o decano do STF, Gilmar Mendes, deu um jeito de endossar o reajuste eleitoreiro do Bolsa Família antes de qualquer deliberação do TSE sobre o assunto, enquanto acusa os colegas do tribunal eleitoral de atuar politicamente. E que campanhas como a de Renan Santos (Missão) e de Deltan Dallagnol (Novo) são suspensas enquanto suas candidaturas seguem valendo.
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Agora é tarde
Ironicamente, depois de apoiar e defender abertamente as medidas mais duras de Moraes, entre elas o bloqueio do X por 40 dias durante as eleições municipais, os lulistas reclamam, agora de censura de Mendonça, e alguns dizem até que a derrubada de mensagens em massa nunca tinha ocorrido.
Esses lulistas, entre eles alegados advogados, têm sido contrapostos pelas próprias postagens de anos atrás, em que defendiam com entusiasmo a atuação de Moraes, que ordenou a derrubada de perfis.
A degradação política e jurídica do Brasil segue se espalhando pela parte da população mais ativa politicamente, em especial nas eleições. Esse é o principal legado do inquérito das fake news.
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