O futebol brasileiro não vive em outro país senão Banânia

23.10.2026

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O Antagonista
O futebol brasileiro não vive em outro país senão Banânia
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Ricardo Kertzman
7 minutos de leitura 20.07.2026 08:30 comentários
Análise

O futebol brasileiro não vive em outro país senão Banânia

A verdade é que, durante décadas, o talento escondeu nosso atraso. Só que o resto do mundo aprendeu a jogar. E a gente não aprendeu a progredir

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Ricardo Kertzman
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O futebol brasileiro não vive em outro país senão Banânia
Reprodução: CazéTV

O Brasil conquistou sua quinta e última Copa do Mundo em 2002. Desde então, nas cinco edições disputadas até 2026, chegou apenas uma vez à semifinal, em 2014, quando foi humilhado pelos 7 a 1 da Alemanha. Nas outras quatro, caiu nas quartas de final: França, em 2006; Holanda, em 2010; Bélgica, em 2018; e Croácia, em 2022. A (ainda) maior potência da história das Copas está, portanto, há mais de duas décadas sem chegar a uma final. Em 2030 serão 28 anos! Quase uma geração inteira.

A reação mais comum entre nós, brazucas, é sempre procurar um culpado. O treinador que convocou o jogador errado; o lateral que não marcou; o atacante que perdeu o pênalti; o volante que não fez a falta. Tudo isso conta e pode decidir uma partida, é claro. Mas não é mera coincidência que, o país que dominou o futebol mundial durante décadas, perdeu a liderança justamente enquanto outras nações avançavam em ciência, educação, renda, tecnologia, gestão e organização – inclusive no futebol.

O esporte bretão não é disputado em uma dimensão paralela, onde os defeitos do país desaparecem assim que a bola rola. Um jogador depende de alimentação, saúde, educação, disciplina, equilíbrio emocional, preparação física e capacidade intelectual. Um treinador precisa estudar, analisar dados, administrar pessoas e desenvolver métodos. Um clube exige gestores, médicos, fisiologistas, psicólogos, analistas. Por que o Brasil seria atrasado em tudo isso e permaneceria na vanguarda do futebol?

O país entra em campo

Em 2025, o PIB per capita do Brasil foi estimado pelo Banco Mundial em cerca de US$ 10,7 mil. O valor médio mundial ficou bem acima disso. Mais importante ainda: enquanto vários países asiáticos e europeus ampliaram fortemente sua produtividade e sua renda ao longo das últimas décadas, o Brasil avançou devagar como uma tartaruga com a barriga cheia, atravessou recessões e perdeu posição relativa. Por óbvio, ainda que não seja determinante, tal situação influencia – e muito – nossa perda de competitividade.

No saneamento básico, 55% da população brasileira era atendida em 2024, diante de uma média mundial de aproximadamente 58%. Parece uma diferença pequena até que se lembre que estamos falando de um país urbanizado, dono de uma das maiores economias do planeta, mas que ainda mantém quase metade da população fora do padrão mínimo de coleta, tratamento e descarte de água e esgoto. Atletas profissionais de alto rendimento costumam se diferenciar por e nos pequenos detalhes.

Na educação, a comparação com a média dos países da OCDE é ainda mais vexatória. No Pisa de 2022, os estudantes brasileiros obtiveram 379 pontos em matemática, contra 472 da OCDE; 410 em leitura, diante de 476; e 403 em ciências, contra 485. O exame mede a capacidade de jovens de 15 anos aplicarem conhecimentos a problemas concretos. Em outras palavras, justamente a habilidade de interpretar uma situação, tomar decisões e executar tarefas sob pressão. Isso lembra um jogo decisivo?

Talento sem sistema

Na inovação, o mesmo abismo. A Organização Mundial da Propriedade Intelectual registrou 3,7 milhões de pedidos de patentes no mundo em 2024 – um recorde e o quinto ano consecutivo de crescimento. No perfil estatístico da própria organização, o Brasil aparece apenas na 46ª posição. O país possui poucas universidades, poucos pesquisadores e algumas ilhas de excelência. E ainda assim, não transforma esse mínimo conhecimento em tecnologia, produtividade e propriedade intelectual.

Esses números, isoladamente ou em conjunto, não provam que uma criança que estuda numa escola ruim será um jogador ruim. Pelé nasceu muito antes da universalização escolar; Garrincha não precisou aprender trigonometria para entortar os russos e Ronaldinho não consultava planilhas antes de escolher o canto do gol. O talento individual pode surgir em qualquer lugar, inclusive nas condições mais adversas. A Argentina, afundada em crise econômica há décadas, disputou a terceira final em quatro Copas.

Durante muito tempo, o Brasil compensou sua precariedade estrutural com uma oferta gigantesca de atletas e uma cultura futebolística incomparável. Quando apenas poucos países tratavam o esporte cientificamente, o improviso tupiniquim bastava e frequentemente sobrava. O mundo, porém, mudou. A Europa profissionalizou a formação, importou os melhores atletas, desenvolveu treinadores, incorporou estatística, medicina, fisiologia, nutrição, psicologia e transformou cada detalhe em vantagem competitiva.

O dinheiro na equação

Segundo a UEFA, os clubes das primeiras divisões europeias faturaram mais de €100 bilhões nos últimos quatro anos. Esse volume financia centros de treinamento, categorias de base, equipamentos, equipes multidisciplinares e acesso aos melhores jogadores do planeta. O futebol europeu, portanto, não tornou-se superior porque seus rapazes nasceram com um dom fora do comum, mas porque, ano após ano, década após década, construiu o ambiente propício para transformar potencial em desempenho esportivo.

Sim. O Brasil continua produzindo jogadores em grande quantidade. Em 2024, os clubes brasileiros lideraram o mundo em transferências internacionais, com 1.102 atletas recebidos e 1.113 enviados. Em 2025, novamente aparecemos no topo, com 1.190 entradas e 1.005 saídas. Ao mesmo tempo, como exemplo, apenas os clubes ingleses gastaram US$ 3,82 bilhões em contratações internacionais no mesmo ano. Ou seja, o Brasil forma, revela e vende barato. A Europa compra, aperfeiçoa, utiliza e vende caro.

O processo lembra outros setores da economia brasileira. O país exporta minério e importa aço; vende grão de café e compra cápsulas processadas; fornece matéria-prima e remunera melhor quem a transforma. No futebol, entregamos adolescentes talentosos e depois convocamos uma seleção quase inteira formada, treinada e empregada no exterior. Até o chamado futebol brasileiro de elite é, em grande medida, produzido atualmente na Inglaterra, na Espanha, na Itália, na França e na Alemanha.

A verdade dói

Também não basta mais reunir 26 jogadores que atuam na Europa e achar que vai ganhar de todo mundo. As seleções europeias recebem atletas formados em ambientes profissionais, acostumados à disciplina tática, à intensidade física e ao jogo coletivo. Muitos passaram por categorias de base submetidas a métodos internacionais relativamente uniformes, e assim não há necessidade de adaptação. O Brasil costuma apenas juntar meia dúzia de “craques” e esperar que a camisa faça o serviço.

É evidente que riqueza, patente ou saneamento básico não fazem gol. A Argentina, repito, foi campeã em 2022 e perdeu ontem a final para a Espanha. Esporte não obedece a uma equação linear. História, população, cultura, geração de talentos, sorte e a presença de um Messi da vida continuam importantes. Minha tese não é que o PIB defina o campeão. É que desenvolvimento, conhecimento e organização aumentam sobremaneira a capacidade de competir e de vencer. Por isso ficamos tão para trás assim.

O Brasil ainda pode ganhar uma Copa, é claro. Continua produzindo bons jogadores e tem uma tradição que quase nenhum país possui. Mas é engano considerar o título uma obrigação. Um país que educa mal, pesquisa pouco, cresce devagar, administra precariamente não tem razão lógica para ser superior onde tudo isso importa muito. A verdade é que, durante décadas, o talento escondeu nosso atraso. Só que o resto do mundo aprendeu a jogar. E a gente não aprendeu a progredir.

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Ricardo Kertzman

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Comentários (2)

Ita

20.07.2026 13:11

E aí estamos nós, torcendo e sofrendo e pouquíssimo podemos fazer para mudar o cenário. Aliás, poderíamos tentar, na próxima eleição presidencial, escolher melhor o mandatário da nação. Sonho....


Carlos Freitas

20.07.2026 10:02

Que síntese sensacional! Parabéns


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