No Brasil surreal, Dalí seria presidente e Miró, o seu vice
Apenas ontem, por dever do ofício, me deparei com três notícias que me fizeram crer viver na Europa do início do século XX
Não tenho muitos arrependimentos na vida. Perto de adentrar à “melhor idade” – uma das expressões mais idiotas que já inventaram -, vivi o suficiente para ter acertado e errado bastante, mas muito pouco, ou quase nada, me faz refletir se poderia ter sido diferente.
Fui um péssimo aluno. Minha sorte foi gostar de jogar bola, e nas escolas em que estudei – fortíssimas -, quem “tomava bomba” (repetir de ano, para quem é novo e não conhece a expressão) não podia jogar no time. Isso me fazia ao menos estudar um pouco.
Eis aí. Se eu pudesse modificar algo em meu passado, seria isso. Teria estudado mais e melhor, principalmente sobre a História e as Artes. Hoje, ao viajar pelo mundo ou me deparar com locais e fatos históricos, realizo o quanto sou ignorante e o quanto perdi por isso.
¡Viva Espanha!
Quem me acompanha sabe que costumo digredir um pouco – às vezes muito! – antes de me aprofundar em um texto, por isso os parágrafos acima. Em tempos de falta de paciência e interesse geral, sei que é um erro. Mas é um vício que considero saudável.
Estive recentemente no interior da Espanha, palco do surrealismo – movimento artístico e literário lançado em 1924 por André Breton, em Paris, influenciado pela psicanálise de Freud, que valorizava o inconsciente, os sonhos e o automatismo.
A definição não é minha, claro, já que um ignorante. É do Dr. Google. Os adeptos, à época, buscavam libertar a criatividade da razão, explorando o ilógico, o erotismo e a distorção da realidade. Os espanhois Salvador Dalí e Joan Miró foram dois dos maiores.
Meu Brasil brasileiro
Apenas ontem, por dever do ofício, pois do contrário me ocuparia de assuntos mais construtivos e prazerosos, me deparei com três notícias que me fizeram crer viver na Europa do início do século XX, pois o surrealismo do surreal, mesmo em Banânia.
Primeiro, leio que Renan Calheiros – sim, o próprio! – irá comandar a comissão do Senado que investigará o Banco Master. Se eu não conhecesse vocês, leitores queridos de O Antagonista, explicaria melhor quem é o alagoano, mas sei que o conhecem bem.
Depois, leio uma nota do deputado federal tucano por Minas Gerais, Aécio Neves, afetando indignação pelas relações comerciais milionárias entre o ex-ministro do STF e de Lula, Ricardo Lewandowski, e a JBS. De novo: confio em vocês para entenderem meu espanto.
O dedo de Deus
Já Edson Fachin, presidente do Supremo, em entrevista para O Globo afirmou que não ficará de braços cruzados diante dos eventos que estão afundando o STF num mar de lama jamais visto na história, a ponto de tornar seu resgate praticamente impossível. Sério?
Pois foi o mesmo ministro-presidente que, dias atrás, em nota oficial, passou pano encardido de infâmia para seus pares, e invocou a velha, surrada e falaciosa tese de defesa das instituições e da democracia para defender o indefensável, leia-se promiscuidade.
Isso depois de um fim de semana em que Deus foi utilizado como berrante por políticos mercadores da fé, que ora o culparam por tempestades e relâmpagos, ora o louvaram por isso, desprezando qualquer hipótese de vida inteligente sobre a Terra.
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Comentários (2)
André Miguel Fegyveres
30.01.2026 09:34Este ano teremos copa do mundo! E eleições presidenciais no Brasil... Espero que 2027 chegue logo! e Lula fora!
Rafael Tomasco
28.01.2026 13:30Se Salvador Dalí estivesse vivo hoje, permanecesse calcado na arte surrealista e fizesse uma visita ao Brasil, há de se considerar duas opções: ou ele sentiria inveja do quão surreal é o Brasil de tal modo que suas artes jamais foram; ou então poderia utilizar a esperteza e nos usar como eterna referência para produzir suas obras. E convenhamos: em pouquíssimo tempo em solo brasileiro, ele teria conteúdo o bastante para a sua vida toda como artista. Um cenário um tanto tragicômico diga-se de passagem