Marcinho VP pede paz
Boa parte das análises e interpretações sobre a megaoperação contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro poderia estar assinada pelo líder da facção criminosa
Há diversas formas de analisar a megaoperação contra o Comando Vermelho (CV) no Rio de Janeiro, que resultou na morte de mais de 120 pessoas, entre elas quatro policiais.
Algumas das interpretações que vêm sendo feitas desde terça-feira, 28, poderiam estar assinadas pelo líder da facção criminosa, Marcinho VP.
Marcinho passou 29 de seus 48 anos preso, segundo seu perfil no Instagram. Sim, ele ainda está preso, mas mantém um perfil de rede social com 159 mil seguidores, no qual reagiu à Operação Contenção dizendo que “Hoje, o Rio virou cenário de luto e indignação” e que “a favela pede paz”.
A decisão judicial que embasou a megaoperação cita o uso sistemático da tortura pelo CV como punição a moradores do Complexo da Penha considerados desobedientes. O juiz Leonardo Picanço menciona um homem amarrado, amordaçado e arrastado por um carro.
É essa paz?
Em outro caso citado na decisão, um criminoso questiona a vítima se ela prefere “morrer logo” a seguir sendo torturada. Segundo o juiz, a vítima parece “aceitar a execução como forma de interromper o sofrimento”. É dessa paz que trata Marcinho VP?
Está claro que os membros de facções criminosas têm uma visão destorcida da realidade. O rapper MC Oruam, filho de Marcinho VP, se notabilizou nos últimos anos por confusas defesas públicas de seu pai, enquanto glamoriza o crime em suas músicas e pede essa mesma “paz” na favela.
Leia mais: Oruam soletrou Comando Vermelho ao contrário
Oruam e Marcinho se sentem legitimados pela perspectiva de que são vítimas. Num ambiente sem lei, que o Estado brasileiro falhou em alcançar, o mais forte se impôs e emula as teorias sociais mais cínicas — Paulo Freire se orgulharia — para manter o poder conquistado à base de violência.
A realidade
Essa forma de enxergar o mundo esbarra na realidade que se impõe pelo cotidiano sofrido, mas digno, de quem tem a força moral para resistir ao caminho do crime, ainda que ele se imponha pela dominação do território onde esse motoboy, porteiro, diarista, manicure ou vendedor de churrasquinho mora.
Nesse contexto, as primeiras reações à Operação Contenção, deflagrada para impedir que o CV domine ainda mais território do que já conseguiu, são eloquentes demais.
Quem tem alguma preocupação genuína com a soberania nacional, um conceito afagado pelo governo Lula nos últimos meses, tende a olhar para essa ação policial como algo positivo, ainda que imagine que ela poderia ter sido mais bem planejada e executada, e que reconheça que essa ação pontual não vai resolver o problema todo — a palavra “contenção” no título da ação atesta a resignação das forças policiais.
Governo Lula
Mas uma parte relevante da inteligência nacional foi condicionada a olhar para esse tipo de repressão ao crime com desconfiança desde o início. E foi assim que o governo Lula reagiu, com desconfiança.
Não se pode ignorar, nesse contexto, que a famigerada “Dama do tráfico” do Amazonas, que comanda a pacifista Associação Instituto Liberdade do Amazonas e frequentava os gabinetes de Brasília, acabou presa por envolvimento com tráfico de drogas. Ela é casada com Tio Patinhas, o chefe do CV no Amazonas.
O presidente da República demorou para se pronunciar sobre a Operação Contenção e, quando o fez, reproduziu a mesma tibieza com que a esquerda brasileira vem tratando do assunto há anos.
“Precisamos de um trabalho coordenado que atinja a espinha dorsal do tráfico sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco”, disse Lula em seu perfil no X.
Sucesso ou fracasso
Lula soaria ingênuo se o discurso, publicado em sua rede social para evitar o improviso que o levou a dizer, dias atrás, que “traficantes são vítimas dos usuários também”, não tivesse sido milimetricamente redigido para caber no ideário do governo, de leniência com os criminosos.
Provavelmente surgirão, nos próximos dias, elementos criticáveis e condenáveis da Operação Contenção. O Supremo Tribunal Federal (STF), que anda muito preocupado com o garantismo desde a Operação Lava Jato, já se apresentou com seus questionamentos às autoridades do Rio.
Mas, por enquanto, o que parece ter ocorrido é a prisão de dezenas de criminosos e a morte de uma centena que tentou evitar o cumprimento dessas prisões durante um combate afastado das moradias — uma cobrança feita, nem sempre de forma desinteressada, por alegados defensores da paz.
A avaliação sobre o sucesso dessa operação dependerá principalmente, contudo, do que o país vai fazer com a comoção despertada por ela. Apresenta-se mais uma oportunidade para tratar das facções criminosas com a atenção que elas merecem, e não apenas em nível estadual, como tem ocorrido.
É preciso deixar mais claro o tipo de paz que os brasileiros preferem.
Leia mais: A insegurança de Lula
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Comentários (5)
ALDO FERREIRA DE MORAES ARAUJO
03.11.2025 10:29A esquerdalha brasileira criou uma nova linha política, um outro "ismo", o "pilantrismo".
JUAREZ BORGES
30.10.2025 17:26chefe de facção preso usando rede social? kd o xandão?
Jorge Irineu Hosang
30.10.2025 14:38Ninguém precisa ler a matéria inteira para se perguntar: Por qual razão, esse maldito, tem perfis em redes sociais, e o STF não mandou bloquear os mesmos? A resposta todos sabemos. Contra fatos, como diz o ditado, não há argumentos.
Andre Luis Dos Santos
30.10.2025 12:22Falou tudo, Fabio B
Fabio B
30.10.2025 12:12A única paz que esse desgraçado assassino merece é aquela eterna, numa vala.