Flávio, Michelle e os dramalhões mexicanos
As novelas mexicanas fizeram sucesso porque exageradas, previsíveis e bizarras como os Bolsonaro. Só que o mundo mudou. E isso perdeu a graça
Durante décadas, o SBT abasteceu as tardes e noites brasileiras com um produto de fórmula simples, barata e quase infalível: a novela mexicana. Havia sempre um patriarca poderoso, uma família rica e desajustada, filhos disputando heranças, madrastas suspeitas, cartas reveladoras, traições, vilãs impiedosas e lágrimas suficientes para encher o lago de Chapultepec – ou, no caso, o Paranoá.
Tudo devidamente acompanhado por closes demorados, música dramática e interpretações tão ruins quanto as dos piores espetáculos amadores de escolas primárias. Mas o Brasil adorou. A primeira novela mexicana exibida pelo canal, Os Ricos Também Choram, abriu o caminho. Depois vieram Carrossel, Maria Mercedes, Marimar, Maria do Bairro e A Usurpadora, entre tantas outras.
A personagem Thalía praticamente se tornou uma cidadã brasileira. Já Gabriela Spanic, intérprete das gêmeas Paulina e Paola Bracho, era um dos rostos mais conhecidos da TV brazuca. Em 1999, A Usurpadora alcançava entre 19 e 21 pontos semanais no Ibope, uma audiência extraordinária que batia de frente com a Globo. Maria do Bairro, em 1995, foi vendida para mais de 180 países.
A nova Cinderela
Só que o tempo passou, Silvio Santos morreu e a TV aberta brasileira perdeu grande parte da audiência para as novas formas digitais de entretenimento. As novelas mexicanas deixaram de provocar a mesma comoção há muitos anos. Por isso, cansa e é eleitoralmente ineficaz o dramalhão bolsonarista envolvendo Flávio, o primogênito do clã das rachadinhas, e Micheque, ops, Michelle Bolsonaro.
A trama tem uma madrasta malvada, enteados e irmãos ressentidos, um patriarca condenado e preso, mensagens e cartas com os piores desaforos lidas publicamente, humilhações, pedidos de desculpas e reconciliações provisórias tão verdadeiras quanto uma nota de três reais. Tudo em nome de Deus, pátria e família, é claro. Tudo em prol do povo brasileiro, sob o comando do ilibadíssimo Valdemar Costa Neto.
O capítulo mais recente foi ao ar na quinta-feira, 23. Depois de quase um mês de pancadaria explícita, Flavinho Racha Master Tarantino Wonka pediu, novamente, desculpas públicas a Michelle. Horas depois, a ex-primeira-dama apareceu em vídeo, disse receber as palavras do enteado “com muita paz”, concedeu-lhe o perdão e falou em reunir um “grande exército de pessoas de bem” para vencer as eleições.
Herança em disputa
Na tradição das melhores piores novelas mexicanas, a quarta esposa do patriarca passou a disputar com os filhos adultos não apenas a atenção do marido, mas o direito de interpretar sua vontade e administrar a herança política. O patrimônio em disputa, neste caso, não é uma fazenda, um banco ou a mansão da família Bracho. É o espólio eleitoral de Jair Bolsonaro: milhões de votos, uma base militante barulhenta.
O conflito familiar, portanto, nunca foi só familiar. É uma briga pelo controle da franquia. Antes da punhalada de Flávio, já houvera a bananada. Em fevereiro, Eduardo Bolsonaro reclamou da falta de apoio da madrasta à candidatura presidencial do irmão. Pouco depois, a ex-primeira-dama publicou a imagem de uma frigideira cheia de bananas e explicou que preparava o prato para o marido.
A cada postagem da madrasta, os filhos reagiam. Televisa alguma, a maior rede de comunicação mexicana, teria coragem de esticar tanto um enredo. Em 25 de junho último, um dia após Michelle acusar Flávio de humilhá-la, Paulo Figueiredo, ideólogo bolsonarista e neto de ditador, resolveu colaborar. Aliado dos bolsokids, chamou Michelle de feminista. Em 30 de junho, ela deixou a presidência do PL Mulher.
A carta da discórdia
Toda novela mexicana precisa de uma carta bombástica escondida em uma gaveta, atrás de um retrato ou, no enredo bolsonarista, dentro de uma Bíblia, revelando que o herdeiro não é quem se imaginava. Na versão tupiniquim, Jair Bolsonaro escreveu a sua e o filho 01 a leu diante das câmeras. O ex-presidente declarou o “irmão de Vorcaro” seu candidato à Presidência, “porta-voz” e “melhor opção”. Naquele momento, a família entrou em mais uma guerra pública.
A carta tinha um destinatário velado. Mais do que referendar Flávio, servia para estabelecer a hierarquia e lembrar a Michelle que nunca foi nem será uma Bolsonaro. O filho mais velho recebeu o cetro político, e a esposa-cuidadora ficou encarregada, no máximo, de ajudar na campanha: mobilizar as mulheres, falar aos evangélicos, cuidar do patriarca etc. A “usurpadora” conheceu o verdadeiro marido.
Só que Michelle não é mais uma personagem secundária. Desde que o “mito” deixou a Presidência, percorreu o país, comandou encontros, cultivou relações com evangélicos e construiu uma base sólida. Em determinado momento, apareceu em pesquisas como mais competitiva que os próprios filhos do marido. Ou seja: tornou-se grande demais para aceitar o papel de figurante e obedecer calada às decisões do clã.
Velha e sem graça
Para os filhos, essa autonomia nunca foi aceita. Sim. Flávio precisa dela. Sua candidatura enfrenta dificuldades enormes e ampliar o eleitorado para além da militância bolsonarista passa por reduzir a rejeição entre as mulheres. Mas Michelle também precisa de Flávio, ao menos do sobrenome. Sem o Bolsonaro, sua força diminui. A paz atual, portanto, tem menos relação com o perdão cristão do que com a necessidade eleitoral.
A ameaça de perder as eleições é o que move madrasta e enteado. O bolsonarismo vende a imagem da família tradicional: casamento, filhos, obediência, valores cristãos, harmonia. Quem acredita enxerga os Bolsonaro reunidos em torno da mesa, agradecendo pela comida e discutindo o país com serenidade bíblica. Mas essa “paz fake” dura até outubro? Dado o histórico, não. Sem chance!
Nos dramalhões mexicanos, mortos ressuscitam, pobres descobrem que são ricos, cegos recuperam a visão, tiranos caem da escada no último capítulo. No clã Bolsonaro, ninguém sabe o que acontecerá amanhã, mas sempre haverá uma câmera ligada. As novelas mexicanas fizeram sucesso porque exageradas, previsíveis e bizarras. Exatamente como a família Bolsonaro. Só que, repito, o mundo mudou. E isso perdeu a graça.
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