A mensagem chocante de Eduardo, o filho, ao pai, Jair Bolsonaro
Particularmente, jamais acreditei na retórica religiosa dos Bolsonaro. Aliás, não acredito em discursos religiosos salvacionistas
Durante os quase dois anos da pandemia do novo coronavírus, o país assistiu – em parte, atônito – às mais cruéis declarações e à absoluta falta de empatia, solidariedade, compaixão e humanidade por parte do então presidente da República, Jair Bolsonaro, e alguns de seus familiares, aliados e seguidores, em relação aos doentes, mortos e enlutados após mais de 700 mil vítimas fatais (oficiais, sem contar as subnotificações) da covid-19.
Frases como “E daí, não sou coveiro?”, “Vão ficar chorando até quando?”, “Deixem de ser maricas”; atitudes como não utilizar máscara – e até mesmo retirá-la do rosto de uma criança, expondo-a ao risco de contágio -; promover motociatas e aglomerações; estimular o uso de medicamentos comprovadamente ineficazes e maldizer as vacinas, dentre outras, apresentaram ao Brasil a essência do “patriota”, do “cidadão de bem”, do “mito”.
Acostumamo-nos, também, às infames piadas e declarações racistas: “O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas”; às demonstrações mais asquerosas de preconceito: “Prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí”; e à ataques contra jornalistas mulheres: “Cala a boca! Vocês são canalhas! Vocês fazem um jornalismo canalha!” ou ainda: “Quer dar o furo a qualquer preço”.
Profundamente perturbadora
Presenciamos, igualmente, falas atentatórias à democracia: “Qualquer decisão do senhor Alexandre de Moraes, esse presidente não mais cumprirá”; e ameaçadoras ao livre pensamento político: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Vamos botar esses picaretas para correr”. Atitude, aliás, infelizmente, repetida recentemente por Romeu Zema, governador de Minas: “… É com esse Brasil que vamos chegar à Brasília para varrer o PT do mapa”.
Mais recentemente, após o autoexílio de Eduardo Bolsonaro nos EUA, onde conspira abertamente contra o país e ameaça autoridades do Judiciário brasileiro, fomos convivendo com uma escalada diária de atos insanos, lá, por ele mesmo, e aqui, ainda que de forma menos aloprada, pelo senador Flávio Bolsonaro – já que o patriarca do clã está preso domiciliarmente, sob medidas cautelares bastante restritivas.
Portanto, por isso – e mais um pouco, que poupo a todos -, não chega a surpreender as mensagens trocadas entre Eduardo e Jair Bolsonaro, e este e Silas Malafaia, que vieram a público na noite de quarta-feira, 20. Porém, uma, em especial, me causou profundo desconforto, e não apenas pelo teor e linguajar, mas pela mensagem que passa, além da psicopatia patente: a ausência do elo incondicional entre um pai e um filho.
Nó na garganta
Ao ler Eduardo Bolsonaro endereçar ao pai: “VTNC SEU INGRATO DO CARALHO!” – assim mesmo, em letras maiúsculas, pensei na minha filha e senti um nó na garganta, que chegou a doer. Por uma fração de milésimo de segundo, uma dor imensa me percorreu o pensamento. Peguei-me sentindo o que Bolsonaro deve ter sentido ao ler aquilo. Um pai, por pior que seja, não merece isso. E um filho, por pior que seja, não pode fazer algo assim.
Lembrei-me de crônicas exageradamente dramáticas de Nelson Rodrigues, e pensei na disfuncionalidade emocional de algumas relações familiares. Sim. Infelizmente, há famílias com graves patologias psíquicas inter-relacionais. Pais e filhos, ou irmãos, que se agridem – inclusive fisicamente – das formas mais cruéis, quase diariamente. O ambiente e o convívio são de tal forma doentes, que o amor, ainda que presente, acaba sepultado.
Particularmente, jamais acreditei na retórica religiosa dos Bolsonaro. Aliás, não acredito em discursos religiosos salvacionistas. Fé e religião verdadeiras não combinam com política e políticos. Quando Dudu Bananinha publicou um vídeo, em lágrimas, saboreando sorvete com pedacinhos de chocolate, sobre a impossibilidade de conversar com o pai – e talvez jamais vê-lo novamente -, não me comovi nem por meio segundo. Ainda bem. Eu estava certo.
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Comentários (8)
Ricardo Nery
25.08.2025 06:08Xará, você tem uma acidez muito maior ao comentar sobre a família Bozo que para com a família Molusco. Nesse caso ele não está sendo indiciado por mandar VTNC para o pai, mas, para variar, por tentativa de abolição do estado de direito e outras coisitas más. Essa situação é pura narrativa com material da PF para desmoralizá-los mais ainda. Nada de interesse publico. Do contrário, me mostre um artigo seu sobre a célebre frase da família Molusco: “A puta vai estar junto”.. Você já se esqueceu ou ela não lhe indignou como agora?
Claudemir Silvestre
21.08.2025 21:30Tanto a Esquerda quanto a Direita Extrema são sinônimos de IGNORÂNCIA, Intolerância, Estupidez e Falta de Opnião Propria. Os EXTREMOS não nis deixa enxergar o todo !!
João Bento Corrêa Lima
21.08.2025 12:09Realmente os bolsonaro são um caso a ser estudado; parece que são de um outro planeta; excluso a Terra!
Pedro Boer
21.08.2025 11:11Voltar a falar de pandemia, é cortina de fumaça de petista desesperado.
Um_velho_na_janela
21.08.2025 10:21Depois da radiografia detalhada da situação sociopolítica nacional, em menos de uma semana, Ricardo nos brinda com a biopsia desse tumor, chamado Família Bolsonaro que se instalou no coração do Brasil. Quem esteja um pouco acima do QI médio nacional, tenha vergonha na cara e se preocupe com o futuro de sua família e do país, não pode deixar de ler este artigo.
Luis Eduardo Rezende Caracik
21.08.2025 08:55Ricardo, a mente de pessoas como Bolsonaro et caterva, Silas Malafaia, Valdemar Costa Neto , os neocons do congresso, e Trump funcionam sob uma lógica diferente daquela das pessoas normais. Não dá para entender e nem prever como se comportarão, se seguirmos nossos próprios princípios e educação. São verdadeiros monstros...
Maggie J
21.08.2025 08:55E pensar que a Dilma, com todas as suas limitações e arrogância, pelo menos não era tão vulgar como os últimos presidentes. Arrisco a dizer que os filhos são piores do que o pai, mas pelos frutos se conhece a árvore. E, mais uma vez, Bolsonaro e família, desta vez com a ajudinha do horroroso presidente americano, conseguiram dar novo fôlego ao petista…
Fabio B
21.08.2025 08:52Deus, pátria e família? Alguém ainda não tem bem claro na mente que isso para os Bolsonaros não passa de um slogan político para enganar otário?