Casa, comida e dinheiro lavado para Ciro Nogueira?
Depois de deixar sugerido quanto custa um presidente de banco público, Operação Compliance Zero indica o preço de um senador em Brasília
O escândalo do Banco Master avançou formalmente para a política nesta quinta-feira, 7, com a quinta fase da Operação Compliance Zero.
Depois de deixar sugerido quanto custa um presidente de banco público — a propina prometida para Paulo Henrique Costa, ex-presidente do BRB, era de 146 milhões de reais, em seis apartamentos de luxo —, a investigação indicou o preço de um senador em Brasília.
O senador Ciro Nogueira (PP-PI, à direita na foto), que é presidente nacional do PP, já estava na linha de tiro faz tempo, como o “grande amigo de vida” do banqueiro Daniel Vorcaro (à esquerda na foto), mas, agora, a Polícia Federal reuniu indícios de que o parlamentar recebia valores mensais para atuar pelo Master no Congresso Nacional — e identificou o que seria uma contrapartida.
“Emenda Master”
“No plano fático, a representação descreve, em primeiro lugar, o episódio relacionado à Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023, apresentada por CIRO NOGUEIRA em 13.8.2024, ampliando a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Segundo os autos, o texto da emenda foi (i) elaborado pela assessoria do Banco Master, (ii) encaminhado por ANDRÉ KRUSCHEWSKY LIMA a DANIEL VORCARO, (iii) impresso e entregue em envelope endereçado a ‘Ciro’, no endereço residencial do senador, coincidente com aquele constante de seus dados fiscais”, descreve o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), no despacho que autorizou a quinta fase da operação, na qual foi preso um primo de Vorcaro.
Essa “Emenda Master”, que, caso aprovada, aumentaria a proteção para a conduta irresponsável do banco, teria sido obtida por meio do pagamento de uma mesada ao senador, de pelo menos 300 mil reais (a investigação fala que o valor subiu para 500 mil reais a partir de determinado momento).
E também por meio da “aquisição de participação societária com deságio expressivo” em uma empresa, da “fruição de imóvel de propriedade de Daniel Vorcaro como se fosse do próprio parlamentar” e do “custeio de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes e voos privados”.
“A narrativa policial enfatiza que os elementos colhidos demonstrariam a existência de um arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade”, diz Mendonça na decisão que determinou que Nogueira não deve se comunicar com nenhum dos investigados pela Compliance Zero, inclusive seu irmão Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, a quem foi imposta a utilização de uma tornozeleira eletrônica.
A PF chegou a detalhar que o senador também teve hospedagens no Park Hyatt New York pagas por Vorcaro, além de “despesas em restaurantes de elevado padrão”.
“Os autos reúnem diversos elementos de prova, dentre os quais se destacam comprovantes bancários de transferências, registros de viagens e mensagens eletrônicas trocadas, em tese, entre integrantes da organização criminosa. Trata-se de elementos que indicam, em status de asserção, a possível prática de atos de corrupção, operações de lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e continuidade delitiva”, resumiu Mendonça.
É só o começo?
Em setembro de 2025, quando Vorcaro ainda tentava vender o Master para o BRB, num esforço para evitar a liquidação do banco, seis líderes partidários da Câmara dos Deputados assinaram um requerimento de urgência para um projeto de lei complementar que daria ao Congresso o poder de demitir o presidente e os diretores do Banco Central (BC).
O projeto, interpretado como uma forma de pressionar a autarquia, não foi para frente e, dois dias depois, o BC rejeitou a compra do Master pelo BRB.
Depois disso, o BC decretou a liquidação extrajudicial do Master, Vorcaro foi preso duas vezes, surgiu o contrato milionário com a mulher de Alexandre de Moraes, o Tribunal de Contas de União (TCU) apareceu para tumultuar as coisas, e o ministro Dias Toffoli assumiu a relatoria do caso no STF de forma bastante esquisita, levando mais de quatro meses para se declarar suspeito.
Ou seja, ainda há muito para as investigações esclarecerem.
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