As lições, que não aprenderemos, do show de Lady Gaga
O país insiste em andar de costas para uma de suas maiores fontes de riqueza, como se lazer, cultura e entretenimento fossem supérfluos
O estrondoso sucesso de público – e, em boa parte, de organização – do show de Lady Gaga no sábado, 3, nas areias de Copacabana, no Rio de Janeiro, provou duas coisas: nem tudo relacionado a lazer, cultura e turismo de padrão internacional nos é inalcançável, e nem todo oportunismo político precisa, obrigatoriamente, contaminar o debate público.
No show de Madonna, em 2024, “influencers exorcistas” tentaram transformar o espetáculo musical em sessão de demonologia digital. Nikolas Ferreira, por exemplo, o líder da lacração juvenil dos tios e tias do zap, descreveu a apresentação da rainha do pop como “satânica” e “pornográfica”, enxergando o fogo do inferno onde havia apenas canhão de luz.
Aliás, seu ranço com divas pop não é novo. Em 2012, com apenas 15 ou 16 anos, já deixava sua marca no Twitter (hoje X), em português claudicante e extrema arrogância: “É só eu que acho essa Lady Gaga escrota?”. Se a ortografia não melhorou, a retórica tampouco. Dias atrás, com o oportunismo habitual, tretou com Eduardo Paes, prefeito do Rio.
Pão e circo nas redes
Surfando em mais um tiroteio na Avenida Brasil, Nikolas publicou nas redes: “Ainda bem que o prefeito do Rio de Janeiro providenciou o show da Lady Gaga no Carnaval”. Como se segurança pública fosse atribuição municipal, e não do governo do Estado, comandado por Cláudio Castro, do seu mesmo PL, e igualmente um sabujo bolsonarista.
O prefeito, então, respondeu: “Esse sujeito, @nikolas_dm, apoia os governadores do Rio de Janeiro, desde Witzel até o atual, que são responsáveis pela segurança pública e ainda tem a cara de pau de apontar o dedo. Todo mundo é do seu partido, deputado”. É conveniente lembrar, que Paes não perde igualmente uma chance de tretar e é também um “pavão digital”.
Apesar do reality show político de quinta categoria que grassa nas redes sociais, Gaga e mais de dois milhões de pessoas levaram ao mundo imagens bem diferentes da capital fluminense. O impacto econômico, estimado em R$ 600 milhões – ainda que provavelmente inflado -, ajuda a justificar todo o esforço logístico e financeiro da prefeitura.
Noite épica em Copacabana
O show foi descrito pela cantora como uma “ópera gótica”, com cinco atos, e cenografia inspirada no teatro grego com figurinos que homenageavam o Brasil. A apresentação marcou o retorno de Gaga ao Brasil após 13 anos, e mesmo diante de uma ameaça de atentado frustrada pela polícia o evento transcorreu sem grandes incidentes.
O sucesso do evento reforça o potencial do Rio de Janeiro – e do Brasil em geral – como palco de grandes espetáculos internacionais, e evidencia a importância de investimentos em cultura para o desenvolvimento econômico e social da cidade e do país. O setor de turismo brasileiro é pífio, em grande medida, por falta de vontade política.
Não há planos nacionais robustos e incentivos estruturais (segurança, educação, mobilidade etc.) nem campanhas internacionais de divulgação consistentes. O país insiste em andar de costas para uma de suas possíveis maiores fontes de riqueza, como se lazer, cultura e entretenimento fossem supérfluos e não potentes motores econômicos de desenvolvimento social.
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Comentários (3)
Fernando Roberto Benitez Nobrega
05.05.2025 16:04Discordo em muito do prefeito. Hoje, segunda feira, 5 de maio, tentei encontrar um guarda municipal pelo Aterro, Botafogo e Urca, laranjeiras e não encontrei, pois provavelmente estavam de folga pelos trabalhos no fim de semana. Sim, política de segurança também é atribuição do prefeito do Rio de Janeiro. Falta transparência de quanto a cidade gastou para promover o show; e quanto vai faturar em impostos e pela transmissão feita pela Globo. O mesmo vale para o Estado, pois a polícia e o atendimento médico nos hospitais estaduais nao foram de graça, e sim fruto dos impostos que pagamos. Faltou transparência em definir as pessoas que poderiam ser VIP e tinham direito a visão privilegiada. E pela Globo, tudo foi um sucesso, omitindo os problemas de saída de Copacabana quando recebi vários vídeos mostrando o caos para sair de Copacabana
Roberto Santos Gois
05.05.2025 13:51Discordo! Primeiro o dever, depois o lazer! Show da Lady Gaga, bancado, mesmo que em parte, com dinheiro público é um assinte contra o cidadão, pagador de impostos. Fico impressionado, vendo gente supostamente inteligente ainda defendendo esta porqueira.
JEAN PAULO NIERO MAZON
05.05.2025 09:33Discordo... lazer e cultura são de suma importância! Mas vale lembrar que Gaga não é cultura nacional e que gastou-se dinheiro de um estado falido! Invistam esse dinheiro em museus, teatros, escolas de letras... Estes são exemplos de cultura que devem ser fomentados, não show da Lady Gaga!