A cara do Brasil: Rio não tem governador, e está tudo bem

26.09.2026

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O Antagonista
A cara do Brasil: Rio não tem governador, e está tudo bem
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Ricardo Kertzman
4 minutos de leitura 27.03.2026 09:03 comentários
Análise

A cara do Brasil: Rio não tem governador, e está tudo bem

Se o topo da República opera no mais baixo nível de desordem, improviso, roubalheira e disputa por poder, por que o Rio seria diferente?

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Ricardo Kertzman
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A cara do Brasil: Rio não tem governador, e está tudo bem
Palácio Guanabara, sede do governo do RJ

O Rio de Janeiro chega ao fim do primeiro trimestre de 2026 sem um governador eleito. E tal situação não é mero acaso ou infortúnio, mas um acúmulo de fatos que só a política fluminense – ainda que a brasuca não seja lá muito melhor – consegue produzir. Deixa eu tentar explicar.

Em 21 de maio de 2025, o então vice-governador Thiago Pampolha (União Brasil) deixou o cargo para assumir como conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ). A escolha foi aprovada pela Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) no mesmo dia. Desde ali, o estado passou a conviver com uma anomalia institucional: um Executivo sem substituto imediato.

O problema ficou latente até virar crise. Em 23 de março de 2026, o governador Cláudio Castro (PL) renunciou ao cargo. Oficialmente, para disputar o Senado. Na prática, saiu na véspera do julgamento que definiria seu destino no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Não foi coincidência de agenda. Foi cálculo político. Ou melhor, jurídico.

Bacellar e o ponto de ruptura

No dia seguinte, 24 de março, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por 5 votos a 2, declarou Cláudio Castro inelegível por oito anos por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. O então candidato contratou ilegalmente servidores para fazer sua campanha.

A decisão também atingiu Thiago Pampolha, além de nomes centrais da engrenagem política do governo, como Rodrigo Bacellar (União Brasil), então presidente da Alerj, e Gabriel Rodrigues Lopes, ex-presidente da Ceperj. 

Além de condenado, ele teve o mandato de deputado estadual cassado, com determinação de retotalização dos votos de 2022. Ou seja: o presidente da Assembleia, que seria o sucessor natural na ausência de governador e vice, simplesmente deixou de existir juridicamente para esse efeito e o resultado foi imediato: dupla vacância no Executivo e colapso da linha sucessória.

Assembleia tenta reagir

Sem vice desde 2025 e sem governador desde a renúncia de Castro, o estado, portanto, caiu numa solução de emergência prevista na Constituição estadual: o comando foi transferido ao presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), desembargador Ricardo Couto de Castro, que assumiu como governador interino ainda em 23 de março de 2026.

A partir daí, a crise deixou de ser política e passou a ser também jurídica. O TSE definiu que a escolha do novo governador até o fim do mandato, em 2026, deveria ocorrer por eleição indireta na Alerj. Em paralelo, o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu trechos da legislação estadual que tratavam justamente desse processo, criando incerteza sobre as regras do jogo.

Em 26 de março, os deputados elegeram Douglas Ruas (PL) como novo presidente da Alerj – movimento que, na prática, o colocaria na linha de frente da sucessão ao Palácio Guanabara. Mas durou horas.

Terra de ninguém

No mesmo dia, a presidente em exercício do TJRJ, desembargadora Suely Lopes Magalhães, anulou a eleição. O motivo: a decisão do TSE exigia primeiro a retotalização dos votos de 2022 após a cassação de Bacellar. Sem isso, qualquer rearranjo na Assembleia seria juridicamente precário.

O resultado é o que se vê: um estado sem governador eleito, sem vice, com a Assembleia travada e sob tutela indireta do Judiciário. O Rio não ficou sem comando apenas. Ficou sem norte político. Sem “eira nem beira” como se diz popularmente. E não que isso seja um grande problema para um estado que teve seus últimos cinco governadores presos, mas, convenhamos, estamos falando da segunda mais importante unidade da Federação.

Sinceramente, nada disso me surpreende. Se o topo da República opera no mais baixo nível de desordem, improviso, roubalheira e disputa permanente por poder – incluindo os três Poderes – por que o Rio de Janeiro seria diferente? De fato, o estado não é exceção. É regra. Ou síntese. E apenas escancarou, com mais barulho e menos disfarce que o resto do país, o que já virou modus operandi nacional.

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