De "mulheres votam mal" a “mulheres não devem votar”, é um pulo. Eis o bolsonarismo

14.07.2026

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O Antagonista

De “mulheres votam mal” a “mulheres não devem votar”, é um pulo. Eis o bolsonarismo

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Ricardo Kertzman
6 minutos de leitura 30.06.2026 15:28 comentários
Análise

De “mulheres votam mal” a “mulheres não devem votar”, é um pulo. Eis o bolsonarismo

Paulo Figueiredo não está só na cruzada contra mulheres na política. Os próprios Flávio e Eduardo são seus parceiros quando atacam Michelle

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Ricardo Kertzman
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De “mulheres votam mal” a “mulheres não devem votar”, é um pulo. Eis o bolsonarismo
Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo. Reprodução: Eduardo Bolsonaro, no X

Em 24 de fevereiro de 1932, o Brasil deu um passo civilizatório histórico. Por meio do Código Eleitoral promulgado por Getúlio Vargas, as mulheres conquistaram o direito ao voto. Quase 100 anos depois, a ideia de que elas possam escolher livremente seus representantes parece tão natural que poucos se lembram de que, durante séculos, metade da população simplesmente não tinha voz política.

Hoje, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres representam cerca de 52,5% do eleitorado brasileiro. São mais de 81 milhões de eleitoras. Em seis de cada dez municípios do país, elas também são maioria entre aqueles aptos a votar. Em outras palavras: não existe projeto de poder viável no Brasil sem o apoio feminino.

Por isso, ouvir um dos principais influenciadores do bolsonarismo e ideólogo do próprio clã Bolsonaro, o neto do general-presidente-ditador João Baptista Figueiredo – aquele do “Eu prendo e arrebento” -, Paulo Figueiredo, afirmar que “Mulheres votam muito mal” e, diante da reação negativa, dobrar a aposta para dizer que “Mulheres votam mal pra caralho“, não me surpreende. É uma crença desses aloprados. Eles realmente são assim. E pensamentos como estes costumam revelar doenças mais profundas.

Voto sem poder

O retrato da participação feminina na política brasuca fica mais claro quando se sai das urnas e se olha para as cadeiras. As mulheres são maioria entre os eleitores brasileiros, mas continuam como minoria acachapante entre candidatas e eleitas. Pela lei, os partidos devem preencher ao menos 30% das candidaturas proporcionais com mulheres. Mesmo assim, na prática, elas seguem espremidas nas estatísticas oficiais da política tupiniquim.

Nas eleições municipais de 2024, as mulheres ocuparam apenas 18,24% das vagas nas câmaras municipais. Nas prefeituras, o quadro é ainda pior, pois apenas 727 cidades brasileiras são governadas por mulheres desde 2025, algo próximo de 13% dos municípios do país. Ou seja, quase nove em cada dez prefeituras continuam sob o comando masculino.

Nos planos estadual e federal, a distorção se repete. As mulheres ocupam apenas 17,7% das cadeiras da Câmara dos Deputados e pouco mais de 17% do Senado. A mulher brasileira vota, decide o segundo turno, carrega campanhas de muitos marmanjos nas costas, aparece abundantemente nas propagandas eleitorais, mas, na hora de efetivamente dividir o poder, descobre que a porta continua estreita, para não dizer fechada. E o problema, segundo Figueiredo, são elas mesmas.

O passado condena

Agora, convenhamos, o episódio não surgiu do nada. O ex-presidente Jair Bolsonaro, o pai da seita, construiu sua trajetória política em permanente conflito com as mulheres. Foram inúmeras declarações ao longo das décadas. Da ofensa à deputada Maria do Rosário, “Você não merece ser estuprada porque é muito feia“, às declarações sobre diferenças salariais entre homens e mulheres, passando pelos frequentes ataques às jornalistas – “Cala a boca”, “Uso a verba de gabinete para comer gente”, “Tenho vontade de te dar um soco” – e às próprias pautas femininas.

Se tudo isso não impediu Bolsonaro de chegar à Presidência da República, pelo menos ajudou a consolidar uma rejeição persistente entre as mulheres. Não por acaso, Michelle Bolsonaro transformou-se, nos últimos anos, numa espécie de ponte entre o bolsonarismo e o eleitorado feminino, numa tentativa de reduzir o problema. Lembrando que, hoje, a própria ex-primeira-dama encontra-se sob fogo cerrado do núcleo duro bolsonarista.

Outro fato notório é que, sempre que as urnas contrariam as expectativas da seita, parcelas expressivas do bolsonarismo raramente procuram explicações em seus próprios erros, como as recentes discussões públicas entre pai e filho, entre irmãos e madrasta, entre líderes partidários e importantes quadros do PL. A culpa costuma ser sempre terceirizada. Ora são os nordestinos. Ora os pobres. Ora os beneficiários de programas sociais. E agora são as mulheres.

As urnas desmentem

Os números das duas últimas eleições presidenciais ajudam a compreender bem a questão. Em 2018, Jair Bolsonaro derrotou Fernando Haddad por mais de dez pontos percentuais no segundo turno. Quatro anos depois, Lula venceu o “mito” por menos de dois pontos. Houve, portanto, uma perda líquida de aproximadamente oito pontos percentuais em apenas uma eleição. E boa parte dessa mudança ocorreu, sim, entre mulheres. 

Mas igualmente ocorreu entre os mais pobres e os nordestinos. Porém, não só. Se as pesquisas realizadas durante o segundo turno de 2022 mostravam Lula com vantagem entre as mulheres, enquanto entre os homens a disputa era mais equilibrada, foi a significativa redução da diferença entre Bolsonaro e seu adversário no estado de São Paulo o fator decisivo.

Ou seja, se Jair Bolsonaro perdeu a eleição de 2022, não foi porque as mulheres votaram mal. Foi porque milhões delas – inclusive, mas não apenas – votaram de forma oposta à dele. E há uma diferença monumental entre as duas coisas. Mas vá bater bumbo para surdo, para ver se ele ouve.

De “votarem mal” a “não votarem mais”

A democracia repousa sob vários pilares, mas um princípio é elementar: cada cidadão, um voto. Ou seja, cada CPF possui exatamente o mesmo peso político, independentemente de gênero, renda, escolaridade, religião ou endereço.

Quando lideranças e influenciadores sustentam que determinados grupos “votam mal”, a mensagem implícita – e explícita – é uma só: tais grupos deveriam votar menos ou ter menor influência sobre os resultados eleitorais. Daí até defender, clara ou veladamente, restrições ao voto, a História demonstra que a distância costuma ser perigosamente curta.

Paulo Figueiredo não está só nessa cruzada contra a participação feminina na política. O próprio Flavinho Rachamaster Tarantino Wonka é seu parceiro quando diz que Michelle, a cuidadora do pai “morimbundo”, “Chegou ontem” e “Não entende nada de política”. Como eu disse, trata-se de uma crença. Ainda que a propaganda eleitoral tente desmentir e muita gente acredite.

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Ricardo Kertzman

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Comentários (5)

Otreblig50

01.07.2026 15:46

Ôh Fabio, se é por isso que elas ( maiorias nos eleitorados ), elegem tantos homens, então deves estar certo !!! Né ????


Fabio

01.07.2026 10:49

Só por ser mais alinhado à esquerda não implica que "vota mal", mas dito isso, de fato as mulheres no mundo inteiro votam mal, principalmente a mulher jovem e branca.


Pedro Boer

30.06.2026 20:38

Concordo plenamente contigo.


Luis Eduardo R. Caracik

30.06.2026 19:07

Que coisa mais idiota! O Brasil só vai começar a melhorar quando começarmos a entender e corrigir os fatores que levam tantos picaretas à política, quando houver voto distrital, menos partidos, fim da reeleição e fim do financiamento público a partidos e campanhas.


LEDI MACHADO DOS SANTOS

30.06.2026 17:30

Dois boçais que só desgraçam o Brasil!🤮


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