E se a favela preferir a polícia?

26.10.2026

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O Antagonista
E se a favela preferir a polícia?
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Rodolfo Borges
7 minutos de leitura 01.11.2025 14:00 comentários
Análise

E se a favela preferir a polícia?

Diante da contundência dos números da AtlasIntel, restou aos críticos da Operação Contenção duvidar da pesquisa ou da percepção dos moradores de favelas

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Rodolfo Borges
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E se a favela preferir a polícia?
Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

É demolidora para o governo Lula e afins a pesquisa AtlasIntel que expôs que os moradores de favelas do Brasil aprovam em um nível muito maior do que a população brasileira em geral a Operação Contenção, deflagrada na terça-feira, 28, nos complexos do Alemão e da Penha.

Os números são tão expressivos que se abriu um debate sobre a qualidade da pesquisa.

O instituto identificou corretamente os moradores de favela, já que essa informação é autodeclaratória? A amostragem é suficiente? Um levantamento como esse deve ser levado em conta na hora de elaborar políticas públicas?

Esses questionamentos provavelmente serão respondidos pelas próximas pesquisas publicadas sobre o assunto, mas o CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, disse a O Antagonista que “a imensa maioria dos respondentes não mente e os que mentem acabam sendo absorvidos pela margem de erro da pesquisa”.

Ou seja, as críticas feitas a essa pesquisa se aplicam a qualquer pesquisa de opinião.

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De que se trata?

Daí surge um outro questionamento: as dúvidas semeadas sobre o levantamento se tratam de tentativas de compreender o problema e melhorar a segurança pública no Brasil ou não passam de mais uma tentativa de fechar os olhos para a realidade da violência brutal das facções no país?

Além dos questionamentos sobre os números, tem muita gente pondo em dúvida o que parecem pensar os moradores das favelas, desdenhando do aparente desejo por alguma ordem como consequência de medo ou da “dor acumulada”.

“O que os políticos da extrema direta estão fazendo é tentar usar a sua justa indignação, o seu medo contra você, para te manipular, como instrumento de marketing político. Eles não estão oferecendo soluções concretas, eles estão se aproveitando para se promover eleitoralmente”, disse Marcelo Freixo, militante histórico da segurança pública no Rio e hoje presidente da Embratur.

Se os “políticos da extrema direita” estão fazendo isso, o que exatamente estaria fazendo Freixo?

Violência

Desde que as autoridades de segurança do Rio de Janeiro confrontaram membros do Comando Vermelho em uma área de mata, longe das moradias, os lulistas fazem críticas diretas e semeiam desconfiança em relação à atuação da polícia, que prendeu 113 pessoas e apreendeu 91 fuzis.

Parte dessa reação se explica pelo constrangimento causado pelas reclamações públicas do governador Cláudio Castro (PL), que lamentou a falta de ajuda federal no enfrentamento do crime organizado no Rio.

Mas há uma questão conceitual — ou de princípios, por assim dizer — na reserva com que os governistas e esquerdistas brasileiros enxergam uma operação como essa, por mais eficiente que seja.

A romantização da favela e da criminalidade parece impedi-los de enxergar o incômodo daqueles que são mais afetados pela dominação territorial dos membros de facções criminosas.

Quem condena a violência da ação policial parece ignorar a violência proporcionada pela expulsão dos agentes estatais nesses locais. Os corpos dos moradores torturados e punidos pelos tribunais do crime não costumam ser expostos no chão para servir de propaganda para a imprensa mundial.

A violência das facções criminosas só transparece na imprensa especializada, cotidianamente. Já no caso da violência policial, há uma legião de sociólogos, antropólogos, jornalistas e diretores de organizações não-governamentais de prontidão para monitorar cada erro, cada excesso.

É tão estranho assim que os moradores de favelas prefiram o risco de alguma violência policial, que tem promotor, procurador, ong, “especialista” em segurança, ministro da Justiça e ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) monitorando, do que a certeza da violência de grupos criminosos, que atuam como polícia, procurador e juiz em tempo recorde?

Enrolação

Sem ter o que dizer, Lula se esconde enquanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, se apresenta para afirmar que é possível enfrentar o crime organizado sem disparar tiros, apenas asfixiando organizações criminosas financeiramente — como se uma coisa excluísse a outra.

Esse é um dos argumentos que os lulistas encontraram para tentar se livrar da pecha de lenientes com a criminalidade — é um argumento péssimo, mas consegue ser melhor do que a alegação de que os governadores de direita, que aproveitam o vácuo do governo para tentar ganhar espaço no debate público nacional sobre segurança pública, querem entregar o pais a Donald Trump.

Só cai nesses discursos quem não está prestando atenção. E quem mora numa favela brasileira não tem alternativa senão prestar atenção a tudo, sob o risco de acabar torturado ou executado.

Medo

O levantamento da AtlasIntel, que ouviu 1.527 pessoas no Rio de Janeiro em 29 e 30 de outubro, e tem margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%, indica que 79,6% dos cariocas sentiram medo no dia da megaoperação contra o Comando Vermelho.

Curiosamente, havia mais pessoas com medo naquele dia fora das favelas cariocas do que dentro delas: 76,8% dos moradores de favela do Rio disseram ter sentido medo, contra 23,2% que não sentiram, enquanto 80,4% do restante da população carioca afirmou sentir medo, e 19,6%, não.

Essa pequena diferença pode ter sido registrada porque os moradores de favelas estão acostumados com a violência, ou pelas falhas de coleta alegadas por aqueles que desconfiam do apoio à operação policial, mas o número indica também que não é exatamente da polícia que se tem medo por ali.

Pesquisa AtlasIntel
Fonte: AtlasIntel

Protestos

O governo Lula se colocou numa posição de cumplicidade com as facções criminosas por conta de um discurso débil, quase desinteressado, e agora tenta sair das cordas com alegações sinuosas que não enfrentam a questão de frente, tentando soar correto enquanto continua errado.

Curiosamente, há moradores do Complexo da Penha fazendo manifestações contra a ação da polícia, mas ainda não surgiu evidência de nenhum “civil” entre os 117 mortos no confronto com a polícia.

No mundo ideal, os mortos estariam todos presos, com a possibilidade de se regenerar — o que, infelizmente, não tem ocorrido com quem é preso e, longo depois, solto por um juiz bem intencionado.

No mundo ideal, esses mortos não teriam reagido. No mundo ideal, esses jovens não teriam se envolvido com facções criminosas. No mundo ideal, nem sequer precisaria existir polícia.

Diante dos números expostos pela pesquisa AtlasIntel, é de se lamentar que nem agora, após a prisão e a morte de tantos criminosos, os moradores dos complexos da Penha e do Alemão se sintam confortáveis para protestar contra o crime organizado — apenas o protesto contra a polícia é tolerado.

A operação contra o Comando Vermelho foi nomeada “Contenção” porque obviamente não tinha a pretensão de resolver a questão. O caminho para que essas pessoas se livrem do jugo do crime ainda é muito longo, e a solução depende da compreensão dos problemas por que eles passam quando não há ação policial.

Leia mais: Marcinho VP pede paz

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Rodolfo Borges

Rodolfo Borges é jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB). Trabalhou em veículos como Correio Braziliense, Istoé Dinheiro, portal R7 e El País Brasil.

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Comentários (6)

ANDRÉ MIGUEL FEGYVERES

27.11.2025 00:33

Freixo era o político que defendia os black-blocs (vagabundos mascarados para fazer quebra-quebras contratados pelo PT via PSOL em São Paulo e RJ) e contratou advogados para defender os assassinos do jornalista Santiago Andrade, cheira mal né?


GIL FERREIRA FERNANDEZ

06.11.2025 21:25

Estranho, o governo federal vir com essa falácia de que se acaba com o crime estrangulando o dinheiro. Eles estiveram no governo de 2002 à 2016 e de 2020 até agora. Lembrando que na primeira fase os governadores eram alinhados com o então Planalto. E o que fizeram nesse tempo? Pois, o que vemos, foi que o crime organizado aumentou consideravelmente e até se internacionalizando


Annie

02.11.2025 11:07

Eu não poderia esperar outra coisa desde que o PT voltou ao poder.


Pedro Boer

01.11.2025 19:23

Pimenta nos olhos dos outros não arde.


Marian

01.11.2025 18:26

São as vítimas que estão clamando pelo combate aos terroristas.


Rosa

01.11.2025 18:22

👏


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