Anistia em construção: que Congresso é esse?
Versos e máximas que descreveram o país agora se aplicam também a Tarcísio, que articula o movimento com o Centrão
Uma das canções mais conhecidas da banda brasiliense Legião Urbana, ícone de todas a gerações brasileiras a partir dos anos 1980, é “Que País É Este”, regravada e cantada por 11 em cada 10 músicos, cuja letra parece ter sido pensada e escrita ainda essa semana, assim como tantas outras melodias, digamos proféticas, que, décadas atrás, já nos mostravam um país pobre, corrupto, impune, sem esperança e sem futuro. Curiosamente, aliás, também escritas por brasilienses – deve ser efeito da água do planalto.
“Nas favelas, no Senado. Sujeira pra todo lado. Ninguém respeita a constituição. Mas todos acreditam no futuro da nação”. Bem, todos é muita gente. E, creio, cada vez menos. Stefan Zweig, escritor judeu-austríaco, em 1941, publicou o livro “Brasil, País do Futuro”, relatando sua vida neste triste pedaço de chão, esquecido por Deus e lindo por natureza. Meus avós, também judeus, acreditaram e repetiram para meus pais, que, inocentes, transmitiram a ideia à frente. Mas, garanto, a falácia termina em mim. Não mentirei para minha filha.
Já o espetacular Millôr Fernandes dizia: ”O Brasil é um país condenado à esperança”. Não sei quem condenou, mas caprichou tanto na sentença que insistimos, como nação, em não contrariar. Ao nos manter aprisionados ao atraso social, moral, cultural, intelectual e econômico, transformamos em realidade as piores previsões catastrofistas de quem, há até algum tempo, seria considerado pessimista, ranzinza, “pra baixo”. Quando alguém, hoje, nos compara a países que se desenvolveram, ouve: “Você tem complexo de vira-latas”.
Passaporte para a impunidade
Bem, voltando ao “Que Congresso é esse?”, inspiração (negativa) e origem dessa análise, tivemos, apenas nas últimas semanas, o aumento no número de deputados, de 513 para 531 (por ora vetado pelo presidente Lula); acúmulo de salários com aposentadorias (em andamento); afrouxamento da Lei da Ficha Limpa (aprovada no Senado); PEC dos Precatórios, leia-se, PEC do Calote (aprovada no Senado); PEC das Prerrogativas – salvo conduto para toda sorte de crimes cometidos por congressistas (em andamento).
Eu desafio o leitor amigo e a leitora amiga mais otimistas a me apontarem um único efeito positivo dessa porcaria toda para a sociedade. E, agora, ganha cada vez mais corpo a possibilidade de uma PEC da Anistia, que pretende livrar das condenações a turba golpista, influenciada, incentivada, financiada e liderada por extremistas, políticos, governantes e militares, que depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, sob a cada vez mais comprovada liderança de Jair Bolsonaro.
O movimento – um verdadeiro golpe pós-tentativa de golpe – é articulado por ninguém menos que o governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas (Republicanos), e apoiado, claro, pelo mensaleiro Valdemar Costa Neto, presidente do PL, de Nikolas Ferreira, Sóstenes Cavalcanti, Zé Trovão e outros “influencers tiktokers”. Aliás, o mesmo PL de Eduardo Bolsonaro, o articulador das sobretaxas das taxas americanas contra o Brasil, e de Carla Zambelli, condenada, foragida e presa na Itália. E por falar em Itália: Quase tutti buona gente.
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Comentários (3)
Um_velho_na_janela
05.09.2025 10:22Magistral e resumidamente, Ricardo expõe uma síntese da paranoia suicida que tomou conta das instituições e do país, caminhando cegamente para a desintegração do Estado e Nação como entes civilizados e democráticos ao promover oficialmente a impunidade legal para crimes tão sérios como "Abolição Violenta do Estado de Direito" e impedir investigações sobre corrupção, peculato e crimes contra a saúde pública.
Suely Racy
04.09.2025 22:19A realidade é essa: quando Lula aparece nas ruas , é completamente vazio. Quando Bolsonaro aparece : tem multidão o seguindo aonde ele for.
Annie
04.09.2025 11:19Sim concordo, mas com essas penas altíssima não concordo, em um país onde assassinos estão soltos por causas de leis fracas isso parece mais vingança do STF.