Bolsonaro como escudo
Derrubada do foro privilegiado é a tentativa mais recente de transformar o ex-presidente em proteção para o sistema político brasileiro
Todas as batalhas políticas são travadas no terreno dos valores, mas isso está longe de significar que o jogo se desenrole no confronto entre virtudes. Na história recente do Brasil, aliás, ocorre exatamente o contrário.
Jair Bolsonaro tenta, hoje, o mesmo que Lula conseguiu ontem: deixar a prisão, que, por enquanto, é domiciliar. O petista travou sua batalha no terreno do lawfare, como se estivesse sendo vítima de uma perseguição em meio à investigação do maior escândalo de corrupção da história do país.
Bolsonaro também se diz vítima de uma perseguição, mas discursa pela liberdade de expressão, em nome da qual o governo de Donald Trump também diz atuar ao punir ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil com a Lei Magnitsky.
É difícil, contudo, enxergar virtude em tudo isso.
Usados
Lula foi usado pelo sistema político brasileiro para “estancar a sangria” gerada pela Operação Lava Jato — e com o auxílio de seu maior rival, Bolsonaro, que também foi beneficiado pela derrubada de uma operação que desnorteou a política nacional ao embaralhar o jogo de poder.
Para se salvar de alguma forma, Bolsonaro teria de conseguir se colocar na mesma posição de Lula, para ser usado como escudo pelo sistema político. É o que seus aliados tentam fazer ao especular com pautas como o afrouxamento da Lei da Ficha Limpa e o fim do foro privilegiado.
Assim como tinha ocorrido com a Lava Jato, agora é o STF que ocupa a posição de condutor dos rumos da política. Caso aprovada, a derrubada do foro por prerrogativa de função tiraria esse poder dos ministros do Supremo, não apenas sobre Bolsonaro, mas sobre o resto dos políticos.
O problema de Bolsonaro
Como expôs a reportagem de capa de Crusoé desta semana, contudo, a derrubada do foro pode não fazer diferença para o julgamento da trama golpista, pois “há o entendimento de que Bolsonaro está sendo julgado na Corte não necessariamente por ter sido presidente durante a trama do golpe, mas por causa de crimes ligados à soberania nacional”.
Além de tudo, Bolsonaro se tornou muito mais tóxico politicamente do que Lula, por conta dos desafios abertos que fez ao STF desde sua Presidência, o que torna qualquer possibilidade de acordo para beneficiá-lo ainda mais difícil.
Nesse cenário, o ex-presidente poderia até ser usado pelo sistema político como tentativa de proteção contra o poder adquirido recentemente pelo STF, mas, ao contrário de Lula, acabaria sem ser beneficiado pela estratégia.
Esse é o tamanho do problema de Bolsonaro.
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