Apartamento como Airbnb: liberdade ou ameaça à segurança?
Ocorrências de segurança relacionadas a hóspedes desconhecidos aumentam 65%, de acordo com o Sindicato dos Síndicos Profissionais
Em 2025, um em cada 12 apartamentos nos grandes centros urbanos está listado em plataformas de locação por temporada, segundo o Observatório do Mercado Imobiliário.
Enquanto proprietários celebram a renda extra, condomínios enfrentam um aumento de 65% em ocorrências de segurança relacionadas a hóspedes desconhecidos, de acordo com o Sindicato dos Síndicos Profissionais (SSP-BR).
O dilema jurídico: direito individual vs. segurança coletiva
“A lei garante ao proprietário o direito de usar seu imóvel, mas não de transformar o condomínio em hotel clandestino”, adverte Felipe Faustino, advogado especialista em direito condominial. “Só neste ano, nosso escritório atuou em 17 casos de condomínios que precisaram judicializar a proibição após incidentes graves.”
Dados que alarmam:
- 72% dos roubos em condomínios de SP/RJ envolvem informações obtidas por hóspedes temporários (Delegacia de Crimes Digitais, 2025)
- 1.200 processos judiciais sobre o tema tramitam atualmente nos TJs brasileiros (CNJ, mar/2025)
- 43% dos condomínios de luxo já registraram danos patrimoniais causados por locações de curta duração (Secovi-SP)
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O que a lei permite (e proíbe)
1. Regulamentação Condominial
- A convenção pode proibir totalmente ou regular a locação por temporada
- Exigência de cadastro prévio de hóspedes é válida
2. Multas e Penalidades
- Valores podem chegar a 10x o valor da diária cobrada
- Suspensão de uso de áreas comuns para o proprietário infrator
“Um caso emblemático em Curitiba resultou em multa de 15 mil reais para o proprietário que alugava seu apartamento para festas, após três advertências”, relata Faustino.
Estratégias para condomínios
1. Alteração convencional
- Exige 2/3 dos presentes em assembleia
- Deve especificar: limite de diárias consecutivas, número máximo de hóspedes, horário para entrada/saída
2. Tecnologia de controle
- Sistemas de reconhecimento facial em portarias
- Chips eletrônicos em chaves temporárias
- Integração com plataformas como Airbnb para bloqueio automático de unidades irregulares
3. Ação judicial
- Embargo administrativo junto à prefeitura
- Ação de obrigação de fazer para remoção de anúncios
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O outro lado: argumentos dos proprietários
“Defendemos caso onde o proprietário comprovou que 80% de sua renda vinha do Airbnb. O juiz autorizou a atividade, mas com restrições: no máximo 15 dias/mês e cadastro biométrico obrigatório”, conta Faustino.
Direitos preservados:
- Não pode haver proibição retroativa
- Exigências devem ser proporcionais
- Síndico não pode invasão de privacidade
Tendência jurisprudencial
Tribunais têm decidido que:
- Proibição total é válida se aprovada em convenção
- Regulamentação é preferível ao veto absoluto
- Condomínio pode cobrar taxa de uso extra para unidades comerciais
“O TJSP fixou entendimento em 2024: condomínio que não regulamentou o Airbnb não pode multar depois. A prevenção é essencial”, enfatiza Faustino.
Checklist para síndicos
1. Verifique se a convenção atual trata do tema
2. Consulte a prefeitura sobre legislação local
3. Proponha assembleia para deliberação
4. Implemente sistema de controle de acesso
5. Documente TODAS as ocorrências
P.S.: Em abril/2025, a Câmara dos Deputados aprovou projeto que exige registro de locações curtas nas prefeituras. A lei aguarda sanção presidencial.
Por Rafael Bernardes, CEO do Síndicolab, e Felipe Faustino, advogado no escritório Faustino & Teles
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