Jogo de computador ajuda em diagnóstico de autismo
Pesquisa da USP testa tecnologia de captação de movimento como apoio ao diagnóstico do transtorno do espectro autista
Um estudo conduzido na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da Universidade de São Paulo apontou que jogos com captação de movimento podem auxiliar na identificação do Transtorno do Espectro Autista (TEA).
A pesquisa, assinada por Fernanda Orosco Guilherme sob orientação do professor Jorge Alberto de Oliveira, testou 76 participantes, divididos entre um grupo com diagnóstico de autismo e um grupo de controle, e constatou que o tempo de resposta motora foi o critério mais eficaz para diferenciar os dois perfis.
Diagnóstico ainda depende de observação clínica
O diagnóstico do TEA é hoje estabelecido a partir da observação direta de pacientes, entrevistas com familiares e testes neuropsicológicos. Por se apoiarem em avaliações comportamentais, esses métodos tendem a carregar certo grau de subjetividade, o que motiva a busca por instrumentos complementares baseados em dados mensuráveis.
Foi nesse contexto que a pesquisadora avaliou se um jogo interativo seria capaz de distinguir, por meio de parâmetros sensório-motores, pessoas com autismo de pessoas neurotípicas. Segundo o levantamento, indivíduos com TEA apresentaram respostas “significativamente mais lentas” em comparação ao grupo de controle, ao longo de toda a execução da tarefa proposta.
Participantes recrutados em parceria com Apae
O experimento contou com a colaboração da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Tatuí, no interior de São Paulo, responsável por indicar os 38 participantes com diagnóstico clínico de autismo, com idades entre 5 e 25 anos. Outras 38 pessoas com desenvolvimento típico, pareadas por gênero e faixa etária, compuseram o grupo de comparação.
A ferramenta usada foi o jogo Bubbles, em que o participante intercepta com os braços bolhas que aparecem na tela em posições, tamanhos e tempos de permanência variados. Cada voluntário passou por uma sessão única, dividida em três blocos com três rodadas de um minuto cada, enquanto uma câmera registrava os movimentos para posterior análise.
Tempo de resposta foi o indicador mais relevante
Os pesquisadores mediram três variáveis: o tempo até o acerto, a distância percorrida pelo alvo até a interceptação e o percentual de acertos. O grupo com autismo teve desempenho inferior nos três quesitos, mas a diferença mais expressiva apareceu no tempo de resposta, considerado pelo estudo o padrão motor mais característico do transtorno.
Os chamados “jogos sérios” — tecnologias voltadas a treinamento, educação ou reabilitação, e não apenas ao entretenimento — vêm sendo utilizados como recurso de análise comportamental em diferentes condições de saúde. No caso do TEA, esse tipo de ferramenta permite registrar coordenação motora, equilíbrio e padrões atípicos de movimento de forma quantificável.
Para a autora da pesquisa, o uso de jogos no diagnóstico tem como vantagens o baixo custo de aplicação e a boa aceitação entre pessoas com autismo, além de possibilitar o acompanhamento da evolução de pacientes em tratamento: “No futuro, esperamos que os jogos sérios se tornem uma ferramenta cada vez mais acessível e amplamente utilizada nos serviços de saúde pública”, afirmou Fernanda Guilherme ao Jornal da USP.
A dissertação está disponível no Banco de Teses da USP, e o jogo Bubbles pode ser acessado gratuitamente pela plataforma Open Heal, que reúne outros jogos voltados ao diagnóstico e à reabilitação de diferentes condições de saúde.
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