Hospitais de SP e MG fazem transplante renal inédito no Brasil
Procedimento inédito no país troca doadores incompatíveis entre dois pacientes e abre nova via de tratamento para quem tem doador vivo
Um paciente de São Paulo e outro de Juiz de Fora trocaram doadores de rim entre si em maio, num procedimento que se tornou o primeiro transplante renal pareado realizado no Brasil.
A operação, conduzida em conjunto pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) e pela Santa Casa de Juiz de Fora, contornou a incompatibilidade que impedia cada um dos pacientes de receber o órgão do próprio doador.
Cirurgias simultâneas nas duas cidades
A técnica consiste em cruzar doadores entre pares que, isoladamente, não poderiam realizar a doação direta por incompatibilidade. Assim, o doador vinculado a um receptor passa a doar para o paciente do outro par, e vice-versa.
No caso realizado em maio, os hospitais constataram que o doador ligado ao paciente paulista era compatível com o receptor de Juiz de Fora, e o doador mineiro, por sua vez, era compatível com o paciente atendido em São Paulo.
Para viabilizar a troca, as quatro cirurgias — duas retiradas e dois implantes — ocorreram ao mesmo tempo nas duas cidades.
O professor Elias David Neto, diretor do Serviço de Transplante Renal do HC-FMUSP, explicou a decisão ao Jornal da USP: “Levamos, ao mesmo tempo, os dois pares para os centros cirúrgicos e iniciamos as cirurgias simultaneamente, garantindo que os dois órgãos seriam utilizados pelos respectivos receptores”.
Os pacientes tiveram alta no sexto dia após a operação.
Legislação restringe expansão da modalidade
A modalidade já é praticada em outros países e depende de bancos de pacientes com doadores vivos incompatíveis, organizados de forma colaborativa entre instituições. No Brasil, porém, a regulamentação atual limita esse tipo de articulação.
A lei brasileira restringe doações entre pessoas sem parentesco, com poucas exceções, como entre cônjuges — uma medida criada para impedir o comércio de órgãos. Para Elias David Neto, o ponto deveria ser a comprovação de que não há interesse financeiro envolvido, não necessariamente o grau de parentesco entre doador e receptor.
Lista compartilhada reúne cerca de 200 pares
O transplante de maio foi possível graças a uma lista compartilhada entre o HC-FMUSP e a Santa Casa de Juiz de Fora, que cadastra pacientes com doadores vivos incompatíveis para identificar combinações entre instituições diferentes.
Atualmente, esse cadastro conta com cerca de 200 pares de doadores e receptores. Elias David Neto defende a adesão de outros hospitais e centros transplantadores à mesma lista, o que ampliaria as chances de encontrar compatibilidades.
Segundo ele, países europeus já adotam esse tipo de cooperação em escala internacional, e o avanço da prática no Brasil depende da superação de barreiras legais e regulatórias.
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