Dennys Xavier na Crusoé: Temos feito por merecer?
Quando se tratam indivíduos ou sociedades como vítimas passivas de forças externas, corre-se o risco de reforçar aquilo que se diz combater
Há uma confiança difusa, quase instintiva, na ideia de que ampliar o discurso já equivale a ampliar a realidade.
Muda-se o foco do palco, projeta-se uma narrativa diferente, coloca-se sob os holofotes aquilo que durante décadas ficou fora da moldura principal.
No caso de um evento como o show do intervalo do Super Bowl de 2026, se a proposta for chamar atenção para regiões menos desenvolvidas do mundo, para povos historicamente “marginalizados” do circuito econômico global, o gesto tem força simbólica inegável.
Milhões assistem, comentam, discutem. O centro do entretenimento global abre espaço para uma periferia esquecida.
É compreensível que isso seja celebrado como avanço.
E, no entanto, permanece uma pergunta que não cabe no roteiro do espetáculo.
O que está sendo feito, de maneira concreta, para que esse olhar externo encontre algo além da narrativa da carência?
Theodore Dalrymple observou algo semelhante ao analisar o que chamou de sentimentalismo tóxico nas sociedades contemporâneas.
Em Podres de Mimados, ele escreve que “a indulgência sentimental para com o comportamento autodestrutivo não é compaixão, mas cumplicidade”.
A frase é dura, mas ilumina um ponto central: quando se tratam indivíduos ou comunidades exclusivamente como vítimas passivas de forças externas, corre-se o risco de reforçar precisamente aquilo que se diz combater.
A compaixão que não exige responsabilidade pode aliviar consciências, mas não constrói instituições.
Transpondo essa reflexão para o plano coletivo, um espetáculo global pode despertar empatia, pode provocar debates e até influenciar percepções.
Porém, o desenvolvimento de uma região não se sustenta na empatia alheia.
Ele depende de estruturas jurídicas previsíveis, de segurança, de respeito a contratos, de cultura educacional consistente, de combate efetivo à corrupção local, de valorização do trabalho produtivo.
Nada disso se resolve no intervalo de um jogo. São processos que exigem décadas de disciplina institucional e escolhas difíceis.
Há também uma dimensão de dignidade envolvida. Quando uma sociedade passa a ser conhecida sobretudo por sua condição de vítima histórica…
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