Renda média, a armadilha de que o Brasil não consegue escapar
Ranking do Banco Mundial mostra país estacionado há 40 anos em posição intermediária; desafio deve ser cobrado dos políticos
Quase 40 anos depois de o Banco Mundial começar a classificar as economias do mundo por faixas de renda, o Brasil permanece estacionado. O país continua entre as economias de renda média-alta, sem conseguir dar o salto para o grupo de alta renda. A atualização referente ao ciclo 2026-2027 manteve o Brasil nessa categoria, ao lado de outras grandes economias emergentes, enquanto seis países avançaram. Vietnã, Filipinas, Sri Lanka, Jordânia e Micronésia passaram de renda média-baixa para média-alta e Togo saiu da baixa renda para a média-baixa.
Desde 1987, quando o ranking teve início, a parcela de economias classificadas pelo Banco Mundial como de baixa renda caiu para apenas 11%, enquanto o número de países de alta renda aumentou significativamente. Na América Latina, esse grupo de alta renda passou de apenas três economias para dezenove, impulsionado principalmente por países menores, como Chile, Uruguai, Panamá e, mais recentemente, Costa Rica. Já as maiores economias da região — Brasil, México, Argentina, Colômbia e Peru — permanecem na faixa intermediária.
Por que isso importa
A classificação do Banco Mundial não mede desenvolvimento. Ela se baseia na renda nacional bruta per capita calculada pelo método Atlas, um indicador utilizado para comparações internacionais e para definir, entre outras coisas, o acesso de países a determinadas linhas de financiamento.
Mudanças de categoria podem decorrer de crescimento econômico consistente, mas também de revisões estatísticas, alterações demográficas ou movimentos cambiais. Neste ano, por exemplo, a Jordânia mudou de faixa principalmente após uma revisão das contas nacionais, enquanto Togo foi beneficiado por uma revisão censitária que reduziu sua população estimada.
A classificação também deve ser interpretada em perspectiva histórica. O economista sul-coreano Keun Lee observa que o próprio Banco Mundial tornou gradualmente menos exigente o critério para enquadrar um país como de alta renda. Em 1990, o limite correspondia a cerca de 30% da renda per capita dos Estados Unidos; hoje equivale a aproximadamente 20%. Além disso, o indicador é calculado em dólares correntes e não leva em conta diferenças de custo de vida entre os países, o que pode produzir distorções.
Ainda assim, essas mudanças metodológicas tornam a estagnação de grandes economias como o Brasil ainda mais significativa: mesmo com um limiar relativamente mais acessível, elas continuam sem conseguir romper a barreira da alta renda.
A permanência prolongada na faixa intermediária deu origem a um conceito influentes na economia do desenvolvimento: a “armadilha da renda média”. O conceito descreve países que enriquecem devido ao aumento do investimento, à urbanização e ao deslocamento de mão de obra para setores mais produtivos, mas deixam de crescer quando esses motores se esgotam. A partir daí, somente ganhos sustentados de produtividade, inovação, difusão tecnológica e qualidade institucional permitem alcançar a renda alta.
Em ano eleitoral, produtividade, inovação, concorrência, educação e integração internacional são temas que demandam atenção no debate público. Sua presença nos programas dos candidatos deve ser cobrada.
Panorama
Os países que conseguiram escapar da armadilha têm trajetórias distintas, mas com elementos recorrentes.
A Coreia do Sul talvez seja o caso mais conhecido. Ainda nos anos 1980, possuía renda per capita inferior à brasileira. Hoje integra o grupo das economias avançadas graças a uma estratégia de longo prazo baseada em abertura ao comércio internacional, forte investimento em educação, política industrial voltada à competitividade global e incorporação crescente de inovação própria.
O Vietnã representa uma versão contemporânea desse processo. Segundo o Banco Mundial, sua promoção neste ano decorreu de vários anos de crescimento sustentado, impulsionado por uma estratégia exportadora, pela integração às cadeias globais de produção e pela rápida difusão de tecnologias industriais.
Na América Latina, o Chile constitui o exemplo mais próximo de convergência bem-sucedida. Embora tenha se beneficiado da mineração, consolidou regras macroeconômicas estáveis, instituições relativamente previsíveis e maior integração internacional, permitindo que a renda elevada fosse sustentada por décadas, e não apenas por ciclos favoráveis das commodities.
O contraste brasileiro aparece justamente na produtividade. O World Development Report 2024 mostra que, enquanto economias como Coreia do Sul continuaram aproximando sua produtividade da fronteira tecnológica mundial, o Brasil atingiu um pico relativo e posteriormente perdeu dinamismo.
Lupa
Um estudo coordenado pelo economista brasileiro Otaviano Canuto, que foi diretor executivo do Banco Mundial e do FMI, argumenta que o Brasil desperdiçou a oportunidade de ingressar entre as economias de alta renda na primeira metade da década passada.
Em vez de transformar o boom das commodities em diversificação produtiva e ganhos permanentes de produtividade, o país experimentou desindustrialização precoce, baixo crescimento da produtividade e concentração crescente em atividades baseadas em recursos naturais.
As recomendações dos autores vão além da defesa genérica de mais investimento. Eles propõem ampliar a concorrência doméstica por meio de maior abertura comercial, acelerar a incorporação de novas tecnologias, fortalecer políticas voltadas ao aumento da produtividade e estimular maior integração às cadeias globais de valor.
Essa agenda converge com uma avaliação mais recente apresentada pelo economista João Gabriel de Araujo Oliveira, da World Academy of Art and Science. Segundo ele, o Brasil não sofre propriamente de escassez de instrumentos de incentivo à inovação — programas como a Lei do Bem existem há tempos —, mas da dificuldade de transformar conhecimento em ganhos disseminados de produtividade.
O país produz excelência tecnológica em segmentos como o agronegócio, mas esses avanços pouco se difundem para a indústria e os serviços. O principal gargalo estaria no ambiente institucional: interação insuficiente entre universidades e empresas, baixa inserção nas cadeias globais de valor, fragilidades na proteção da propriedade intelectual e limitada capacidade das empresas de absorver novas tecnologias.
Esse diagnóstico dialoga com a estratégia dos “3 Is” proposta pelo Banco Mundial — investimento, difusão tecnológica (infusion) e inovação. A convergência indica que o desafio é construir instituições capazes de converter investimento, conhecimento e inovação em aumento de produtividade.
Resumo da Ópera
A atualização anual do Banco Mundial não altera a posição do Brasil, mas reforça uma pergunta que acompanha o país há quase quatro décadas: por que algumas economias conseguem romper a barreira da renda média enquanto outras permanecem estacionadas?
A capacidade de elevar consistentemente a produtividade é o fator essencial. O crescimento baseado em consumo, commodities ou expansão do investimento tende a perder força com o tempo. O diferencial dos países que convergiram para a alta renda foi construir instituições que favorecem concorrência, inovação, difusão tecnológica e formação de capital humano.
Durante o ciclo eleitoral, essa talvez seja a melhor régua para avaliar programas de governo. Os eleitores deveriam cobrar dos candidatos ideias para que produtividade, inovação e competitividade cresçam e se reforcem mutuamente ao longo do tempo. É esse processo — e não uma simples melhora de posição no ranking do Banco Mundial — que determinará se o país finalmente conseguirá superar a armadilha da renda média.
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