Pesquisas no Canadá e na Índia indicam: falar dois idiomas pode atrasar em cerca de 4 anos os sintomas da demência, mas não previne a doença
Estudos no Canadá e na Índia mostram que falar dois idiomas atrasa em cerca de 4 anos os sintomas da demência, mas não previne a doença. Entenda a reserva cognitiva
Falar dois idiomas pode atrasar em cerca de 4 anos o início dos sintomas de demência. A descoberta, feita no Canadá e depois confirmada na Índia, não significa que o bilinguismo previna a doença.
O que a pesquisa canadense descobriu sobre bilinguismo e demência?
Ellen Bialystok, Fergus Craik e Morris Freedman, da Universidade York, publicaram em 2007, na revista Neuropsychologia, uma análise de prontuários clínicos de 184 pacientes com queixas cognitivas.
Entre esses pacientes, os bilíngues apresentaram os primeiros sintomas de demência cerca de 4 anos mais tarde do que os monolíngues, com as demais características clínicas equivalentes entre os grupos.

O estudo indiano confirmou o mesmo padrão?
Sim. Suvarna Alladi e colegas revisaram, em Hyderabad, na Índia, os prontuários de 648 pacientes com demência, publicando o resultado em 2013 na revista Neurology.
O atraso encontrado ali foi de cerca de 4,5 anos, e apareceu mesmo entre pacientes analfabetos, de forma independente de escolaridade, ocupação e histórico de imigração.

O que é reserva cognitiva, e por que ela explica esse efeito?
O mecanismo proposto pelos pesquisadores se chama reserva cognitiva. Para resumir o conceito em poucas frases:
- Gerenciar dois idiomas ao mesmo tempo exige um controle executivo constante do cérebro.
- Esse exercício repetido, ao longo de décadas, criaria uma reserva de funcionamento cerebral mais resistente ao declínio.
- Quando a doença começa a afetar o cérebro, essa reserva permitiria manter os sintomas invisíveis por mais tempo, antes de aparecerem clinicamente.
Nem todo questionamento científico sobre o achado já foi resolvido.
Escolaridade, sexo, ocupação e local de moradia não explicavam a diferença encontrada.
Pesquisadores discutem se outros fatores de confusão, difíceis de medir, poderiam explicar parte do efeito.
Esse resultado prova que falar dois idiomas previne demência?
Não. Os estudos são observacionais, e a conclusão correta é que o bilinguismo atrasa o aparecimento dos sintomas, não que ele previna ou cure a doença.
O que ainda gera debate sobre essa conclusão?
Mesmo com os cuidados metodológicos dos dois estudos, pesquisadores da área seguem discutindo se fatores de confusão mais sutis, difíceis de isolar em qualquer levantamento observacional, poderiam explicar parte do efeito medido.
Por isso, a forma mais honesta de descrever esse achado é dizer que “pesquisas sugerem” o atraso de cerca de 4 anos, não afirmar isso como fato definitivo e fechado.
Esse mesmo cuidado ao separar o que a ciência já provou do que ainda é hipótese já apareceu quando comparamos escrita à mão e teclado no cérebro.

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)