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Competitividade: o mercado melhora, as instituições, nem tanto
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Carlos Graieb
6 minutos de leitura 27.08.2026 11:32 comentários
Oráculo

Competitividade: o mercado melhora, as instituições, nem tanto

Nova edição do ranking do CLP traz Santa Catarina à frente de São Paulo e alertas sobre quadro nacional

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Carlos Graieb
6 minutos de leitura 27.08.2026 11:32 comentários 0
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Florianópolis, capital de Santa Catarina. Foto: Cristian_Lourenco/depositphotos.com
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Santa Catarina destronou São Paulo. Essa é a grande novidade da 15ª edição do Ranking de Competitividade dos Estados, divulgada nesta quinta-feira, 27, pelo Centro de Liderança Pública (CLP). Pela primeira vez desde o início do levantamento, São Paulo não aparece na primeira posição.

O ranking avalia as 27 unidades da Federação por meio de 100 indicadores distribuídos em dez pilares: Infraestrutura, Sustentabilidade Social, Segurança Pública, Educação, Solidez Fiscal, Eficiência da Máquina Pública, Capital Humano, Sustentabilidade Ambiental, Potencial de Mercado e Inovação.

O objetivo é oferecer uma visão sistêmica da gestão estadual, permitindo comparar desempenho, identificar fragilidades e disseminar boas práticas. O próprio CLP apresenta o ranking como instrumento para ajudar o setor privado a avaliar a atratividade relativa dos estados para investimentos.

Por que isso interessa

O levantamento foi concebido pelo CLP em 2011, inicialmente com desenvolvimento técnico da Economist Intelligence Unit. A Tendências Consultoria passou a participar em 2015 e, desde 2021, responde pela concepção metodológica.

A metodologia atual deriva de benchmark internacional e literatura acadêmica especializada e permite comparar não apenas os estados entre si, mas sua evolução ao longo do tempo.

Ao lado da liderança alcançada por Santa Catarina, a conclusão mais interessante da nova edição da pesquisa é que a competitividade brasileira está se desconcentrando e premia estados capazes de evitar grandes desequilíbrios entre áreas de gestão.

Lupa

Santa Catarina é o melhor exemplo do avanço em múltiplas dimensões. Está entre os cinco primeiros colocados nos dez pilares analisados. Lidera quatro — Segurança Pública, Sustentabilidade Social, Potencial de Mercado e Capital Humano — e saltou do décimo para o terceiro lugar em Eficiência da Máquina Pública. São Paulo caiu para segundo, embora continue liderando Infraestrutura, Educação e Sustentabilidade Ambiental.

No outro extremo está o Rio de Janeiro. O estado ganhou duas posições, mas continua sendo o único representante do Sudeste fora do top 10. Seu problema ajuda a mostrar por que tamanho da economia e competitividade não são sinônimos. O Rio é terceiro em qualificação dos trabalhadores e segundo em produtividade do trabalho, mas aparece em 23º lugar em Solidez Fiscal e tem a pior nota em desemprego de longo prazo e inserção econômica. Tem ativos, mas não consegue convertê-los integralmente em competitividade.

Há ainda movimentos que merecem registro. O Rio Grande do Sul subiu para quarto mesmo depois do impacto das enchentes nos últimos anos Os quatro estados do Centro-Oeste aparecem no top 10. E o Piauí chegou ao 19º lugar, sua melhor posição histórica, aparecendo em terceiro em Potencial de Mercado.

O Nordeste também apresenta alguns bolsões importantes de excelência: Ceará chegou ao 11º lugar geral e ao quinto em Educação; Alagoas é terceiro em Inovação; e Maranhão, terceiro em Solidez Fiscal.

Panorama

Quando se tira a lupa dos estados e se observa o Brasil como um todo, o quadro fica mais ambíguo.

Potencial de Mercado foi o pilar que mais melhorou: sua mediana saltou de 39,44 para 56,04 pontos, avanço de 42,1%. Sustentabilidade Ambiental cresceu 30,7%; Educação, 3,4%; e Inovação, apenas 1,4%.

O problema está do outro lado da tabela. Seis dos dez pilares registraram deterioração. Infraestrutura caiu 2,3%; Segurança Pública, 9,3%; Eficiência da Máquina Pública, 12,4%; Sustentabilidade Social, 14,1%; Solidez Fiscal, 14,2%; e Capital Humano, 16,9%.

Os indicadores ligados ao potencial de mercado melhoraram bastante, favorecidos pelo emprego e pelo dinamismo das economias estaduais. Ao mesmo tempo, pioraram pilares associados a capacidades estruturais do poder público e à sustentação do crescimento no longo prazo.

O mercado avançou mais rapidamente do que a infraestrutura institucional necessária para sustentar essa evolução.

O que merece atenção

Profissionais de relações governamentais e executivos podem ler o ranking de duas maneiras.

A primeira se concentra nos pilares relevantes para determinada atividade. Uma empresa intensiva em logística deve olhar Infraestrutura; uma operação dependente de profissionais especializados, Capital Humano e Educação; investimentos de longo prazo exigem atenção à Solidez Fiscal, à eficiência administrativa e à capacidade de o governo cumprir compromissos.

O desenho do ranking favorece essa leitura. Educação, Infraestrutura, Segurança Pública e Sustentabilidade Social têm peso de 11,3% cada; Eficiência da Máquina Pública e Solidez Fiscal, 10,5% cada.

A segunda leitura é política. Governadores e assembleias eleitos em 2026 deverão oferecer respostas à piora dos indicadores em algumas áreas. Segurança é o exemplo evidente, mas a deterioração fiscal e de capital humano pode produzir agendas regulatórias, fiscais, educacionais e de investimento que afetarão diretamente as empresas.

O ranking pode funcionar como uma espécie de mapa das prioridades a serem cobradas dos novos governos estaduais. Mais útil do que saber quem ficou em primeiro é identificar onde cada governo está ficando para trás e que instrumentos políticos provavelmente utilizará para tentar reagir.

Há também uma oportunidade. Infraestrutura recuou 2,3%, enquanto permanecem gargalos em logística, saneamento, mobilidade, energia e conectividade. A necessidade de recuperar investimento público aumenta a relevância de concessões, PPPs e outras formas de participação privada.

Resumo da ópera

A troca de São Paulo por Santa Catarina no topo rende manchete, mas não é a principal mensagem para quem toma decisões empresariais.

Depois de 15 edições, o ranking permite enxergar que competitividade é um processo cumulativo. Santa Catarina chegou à liderança não por depender de uma vantagem particular, mas por combinar bons resultados em praticamente todas as dimensões avaliadas. O Rio mostra o inverso: possuir ativos econômicos e humanos relevantes não basta quando outros gargalos impedem sua conversão em resultados.

O agregado nacional deixa um sinal amarelo. O Brasil melhorou em Potencial de Mercado e recuou em seis dos dez pilares. Para empresas, isso significa que há oportunidades no horizonte, mas o mapa dos riscos institucionais traz sinais de bloqueio.

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Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

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