O único café do Brasil cultivado em solo de origem vulcânica nasce na mesma caldeira onde brotam águas sulfurosas a 45 °C e funciona o primeiro balneário termal moderno do país
A geologia ajuda a explicar tanto as águas quentes quanto a produção agrícola
Terreno vulcânico costuma ser assunto de países como Itália, Indonésia ou Costa Rica, e não do interior de Minas Gerais. No sul do estado, porém, Poços de Caldas cresceu dentro da borda de uma antiga estrutura vulcânica, e essa herança geológica explica ao mesmo tempo as fontes quentes que atraem visitantes desde o Império e o café especial que hoje leva o nome da região para o exterior.
Por que só essa região produz café em solo vulcânico no Brasil?
Porque a formação geológica não se repete em outro ponto do país. Conforme a Emater-MG, a marca coletiva Cafés da Região Vulcânica nasceu de um projeto iniciado em 2018 e foi lançada em 2020, durante a Semana Internacional do Café, reunindo produtores da área de solo vulcânico entre o sul mineiro e o nordeste paulista.
Os cafeicultores explicam o diferencial pela combinação de altitude e minerais. As lavouras ficam entre 700 e 1.300 metros, com noites frias e solo rico, o que resulta em um grão de acidez marcada. Segundo o Sebrae Minas, a região abrange 12 municípios, oito mineiros e quatro paulistas, e a marca coletiva foi registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) em 2021 pela associação de produtores, que segue em processo de obtenção da Indicação Geográfica.

Como a caldeira vulcânica aquece as fontes da Cidade das Rosas
A água esquenta em profundidade e chega à superfície pronta para uso terapêutico. De acordo com a Prefeitura de Poços de Caldas, a Fonte Pedro Botelho tem águas alcalinas, bicarbonatadas, sulfetadas e hipertermais, com temperatura de 45 °C, a mais elevada entre as fontes sulfurosas quentes da cidade.
Essa fonte não abastece só a si mesma. No mesmo ponto ficam as nascentes Chiquinha e Mariquinhas, e o conjunto alimenta o principal balneário do município. O local ficou conhecido como Fonte do Leãozinho, por causa do chafariz esculpido em mármore, e integra o complexo hidrotermal que deu à cidade a fama de estância de águas raras.

O balneário de 1931 que inaugurou o termalismo moderno no país
As Thermas Antônio Carlos não foram apenas mais uma casa de banho. Conforme a Prefeitura de Poços de Caldas, o prédio inaugurado em 1931 foi o primeiro estabelecimento termal moderno do Brasil, oferecendo tratamentos corporais com água termal inexistentes no país até então.
A arquitetura acompanha a ambição do projeto. Assinado pelo arquiteto Eduardo Pederneiras, o edifício tem partido hexagonal e predominância neoclássica, distribuído em quatro níveis que reúnem alas de banho masculina e feminina, duchas, saunas, salas de inalação e um setor de mecanoterapia com aparelhos vindos da Alemanha na década de 1920. O reconhecimento das águas, no entanto, é bem anterior: a Prefeitura registra que suas propriedades terapêuticas são conhecidas desde o século XVIII.
O que visitar entre as montanhas que formam a borda da cratera?
As atrações se dividem entre o centro histórico e a Serra de São Domingos, que fecha o horizonte da cidade. Confira abaixo os principais pontos indicados pela Prefeitura de Poços de Caldas:
- Thermas Antônio Carlos: balneário neoclássico com salas de banho, duchas, saunas, piscina e ofurô abastecidos por água sulfurosa.
- Praça Dom Pedro II: abriga o Balneário Mário Mourão, duas fontes públicas de água sulfurosa e a Ponte da Amizade, de 1912.
- Parque José Affonso Junqueira: área central onde ficam a Fonte do Leãozinho e a Fonte Luminosa, construída nos anos 1930.
- Represa Bortolan: reservatório com passeios de lancha e pedalinho, restaurantes e hotéis ao longo da orla.
- Véu das Noivas: cachoeira em meio à mata, uma das paradas clássicas do roteiro natural.
- Fábricas de cristais: ateliês que mantêm a tradição do vidro soprado artesanal na cidade.
Quem quer descobrir águas termais e mirantes vai curtir este vídeo do canal De fora em Juiz de Fora, com mais de 244 mil visualizações, onde Tati Marmon explora Poços de Caldas.
Como é o clima de Poços de Caldas ao longo do ano?
A altitude elevada mantém a cidade fresca mesmo no auge do verão, e o inverno traz madrugadas de um dígito com ar seco. Veja abaixo o comportamento médio do clima ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas. Em agosto, a média histórica de chuva em Poços de Caldas é de apenas 30 mm, conforme o Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de viajar.
Esse tipo de aproveitamento de uma característica natural rara aparece também em outros municípios do interior que transformaram vocação local em economia.
A cidade mineira que vive do que ficou embaixo do chão
Poços de Caldas transformou uma herança geológica de milhões de anos em duas economias que convivem no mesmo território: a das águas quentes, exploradas desde antes do Império, e a do café que só existe por causa do mesmo solo. Entre uma coisa e outra ficam as montanhas que fecham a cidade em círculo.
Vale subir a serra pela manhã, tomar um café da região vulcânica no meio da tarde e terminar o dia num banho sulfuroso, do jeito que os visitantes fazem há quase um século.
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