Passeata boa é contra político. Passeata a favor vira esculhambação
Bolsonaro ainda é o político que mais junta povo na rua. Mas as pessoas estão cada vez mais carentes de um projeto de país e fartas de promessas vazias.
A manifestação flopada do fim de semana revelou uma verdade incômoda: passeata a favor de político nunca dá certo. Sempre acaba em avacalhação. Isso porque contraria a própria natureza das manifestações populares. O povo vai pra rua pra contestar o poder, não pra bajular quem já tem poder.
Manifestação política é um instrumento do cidadão comum para reequilibrar forças. Enquanto autoridades e políticos mesmo fora do cargo têm redes, partido, seguidores e espaço na imprensa, o cidadão tem a rua. Ele precisa se juntar a outros pra ser ouvido. É por isso que manifestações fortes são, quase sempre, contra quem está no poder ou quem detém influência.
Quando a passeata é a favor do poderoso, perde o sentido. Vira evento promocional. O bolsonarismo parece ainda não ter entendido isso. Bolsonaro prometeu muito e entregou pouco. E quem foi pra rua no domingo foi, em grande parte, pra defendê-lo, defender os filhos dele, defender a própria narrativa. Tudo menos propor algo novo pro país.
Enquanto isso, as pessoas estão com a vida difícil. O preço das coisas subiu, o emprego deteriorou, a economia aperta. E, diante disso, o que Bolsonaro tem a oferecer? Ele pede apoio e fidelidade, mas não entrega alternativa nem aponta sucessor. Mesmo quem vota à direita começa a se cansar.
Janaína Paschoal lembrou bem: 2026 já começou. E Bolsonaro não será candidato. Mesmo assim, insiste em manter o foco em si. Pede apoio, diz que com 50% do Congresso resolve, ignora que já teve maioria e não fez nada.
Na prática, o que o bolsonarismo produziu? Apenas a reabilitação política de Lula. Foi sob Bolsonaro que Lula saiu da cadeia e voltou à presidência. E tanto ele quanto os filhos diziam que era melhor Lula solto. Apostavam que as pessoas se revoltariam, não sairiam das ruas e o resultado seria a derrota do PT. Parece que, novamente, as coisas não saíram como Bolsonaro prometia.
Esse comportamento centrado, auto-referente e repetitivo está minando o apoio. Bolsonaro virou o político harpa: tudo para ele, nada em troca. Aos poucos, até os que o defenderam por anos começam a perceber que talvez não haja mais projeto, só autopreservação.
E quando nem os apoiadores veem mais sentido em ir pra rua, é sinal de que a força simbólica do líder está se esgotando. Bolsonaro ainda é o político que mais junta povo na rua. Mas as pessoas estão cada vez mais carentes de um projeto de país e fartas de promessas vazias.
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Comentários (5)
Clarissa Meyer Tolentino
18.07.2025 18:16Exato!! Lula já era carta fora do baralho quando Bolsonaro, no afã de proteger os filhos, enterrou a Lava Jato. Certamente não acreditava que o molusco conseguisse ressurgir das cinzas. Deu no que deu...!
Marcilio Monteiro De Souza
02.07.2025 11:29O Brasil precisa se livrar dessas duas chagas que não soma e sim divide.
Fabio B
02.07.2025 08:36O bolsonarismo matou a força simbólica das manifestações ao transformá-las em palanque pessoal. Passeata virou evento promocional vazio, um comício de oportunistas, não um instrumento de pressão popular. Por isso que cada vez menos gente se sujeita a esse papel vexatório e ridículo, tanto no lado do petismo quanto no do bolsonarismo, que se equivalem.
Joaquim Arino Durán
01.07.2025 11:11Leitura sensível e inteligente, como de costume.
Ita
01.07.2025 09:43Exato!!!!! haja saco para aguentar essa situação.