Jerônimo Teixeira na Crusoé: O boné é um inimigo da civilização
Não foi só a etiqueta que se quebrou quando Elon Musk entrou no Salão Oval da Casa Branca sem descobrir a cabeça
Não sou uma pessoa elegante. Minha indumentária do dia a dia é composta de duas peças básicas: calça jeans e camiseta.
Nas raras ocasiões sociais a que compareço, em geral visto a melhor calça jeans que encontro no armário (não é difícil escolher: são só três) e uma camisa tradicional, com botões.
Tenho um terno, que não uso há pelo menos três anos. Uma gravata Dior, presente que meu pai ganhou de minha irmã e que acabei herdando, é o único item de grife que possuo.
No entanto, hoje vou me arriscar em terreno inédito para esta coluna: vou dar um conselho de moda.
O conselho é uma interdição: não use boné.
Quando os ricos se tatuam
Um dos mais afiados ensaístas conservadores da atualidade, Theodore Dalrymple, nom de plume do inglês Anthony Daniels, tem uma implicância particular com tatuagens.
Em uma entrevista em vídeo que fiz com ele em 2016, Dalrymple manifestou seu espanto com a popularização de uma prática que costumava ser restrita a poucos grupos – soldados, marinheiros e presidiários.
A tatuagem, dizia ele, foi gradualmente sendo adotada pelas classes mais altas. Dalrymple acreditava que isso era um sintoma de declínio civilizatório.
Acredito que algo parecido acontece com o boné.
Se não tem sol, pra quê?
Como a tatuagem, o boné também já foi a marca de grupos específicos — rappers e jogadores de beisebol, por exemplo.
Hoje, universalizou-se como adereço da moda masculina (as mulheres também usam, mas, creio, com menos frequência).
Um item de vestuário que na origem tem fins utilitários – proteger a cabeça e o rosto do sol – passou a ser aceito até nas ocasiões em que visto camisa e minha melhor calça jeans.
Há até quem use boné à noite. Por que portar uma viseira absurda…
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