Israel, os Estados Unidos e o filme 'Ben Hur'

26.09.2026

logo-crusoe-new
O Antagonista
Israel, os Estados Unidos e o filme ‘Ben Hur’
avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 12.11.2023 12:51 comentários
Opinião

Israel, os Estados Unidos e o filme ‘Ben Hur’

Um amigo judeu, professor dos meus filhos, usou o filme Ben Hur para descrever o momento atual nas relações entre Israel e os Estados Unidos. Vou pedir que você me acompanhe até o final do texto para entender do que se trata...

avatar
Carlos Graieb
5 minutos de leitura 12.11.2023 12:51 comentários 0
Israel, os Estados Unidos e o filme ‘Ben Hur’
Foto: Reprodução/X/Benjamin Netanyahu

Um amigo judeu, professor dos meus filhos, usou o filme Ben Hur para descrever o momento atual nas relações entre Israel e os Estados Unidos. Vou pedir que você me acompanhe até o final do texto para entender do que se trata.

Os Estados Unidos são parceiros incondicionais de Israel na guerra contra o Hamas. O governo de Joe Biden entende que, depois do 7 de Outubro, neutralizar completamente o grupo terrorista tornou-se um imperativo existencial para os israelenses. Qualquer resultado diferente seria um incentivo para outros fundamentalistas islâmicos da vizinhança, que, como o Hamas, sonham em varrer o Estado judeu do mapa. 

Antony Blinken, o secretário de Estado americano, tem reiterado pedidos para que Israel multiplique os cuidados com civis. Essas falas, no entanto, não trazem uma condenação embutida, como a do primeiro-ministro francês Emmanuel Macron, que disse “não haver justificativa para bombardeios que matam civis em Gaza”.

Os Estados Unidos não insistem num cessar-fogo que traria benefícios ao Hamas, mas não aos civis de Gaza, ao contrário das pausas humanitárias já implementadas por Israel. Antes do início da guerra, segundo pesquisas do Arab Barometer que O Antagonista já comentou, a maioria da população de Gaza não confia no Hamas. Nos seus quase 20 anos de domínio, o grupo roubou centenas de milhões de dólares de recursos dos civis para construir seus túneis e sua capacidade de matar e destruir. A rapina não seria diferente em um cessar-fogo. 

O ponto onde os Estados Unidos e Israel se distanciam é na visão sobre o pós-guerra. Num encontro com o primeiro-ministro japonês Fumio Kishida, na terça-feira, 7, Blinken disse que é “necessário trabalhar nos elementos afirmativos de uma paz continuada, incluindo as vozes e aspirações do povo palestino sobre a governança em Gaza”. Ele foi explícito a respeito daquilo que a receita deveria incluir: uma Gaza unificada com a Cisjordânia, sob a administração da Autoridade Palestina. 

Netanyahu não se comprometeu com isso até agora. Pelo contrário, disse que depois da guerra Israel fará o policiamento da Faixa de Gaza por um período indefinido. E o que dizem os políticos “centristas”, que antes do 7 de Outubro lideravam a oposição a Netanyahu? Nada muito diferente. O moderado Benny Gantz, chamado a integrar o gabinete de guerra de Israel, afirmou nesta semana que somente depois que todas as questões de segurança estejam resolvidas será possível discutir “um mecanismo para Gaza”. 

Esse é o estado de espírito dos israelenses, num momento em que a memória dos atentados terroristas ainda é sangrenta. A pesquisa Peace Index é realizada há cerca de 30 anos pela Universidade de Tel Aviv. A sondagem mais recente foi feita entre os dias 23 e 28 de outubro, ouvindo judeus e árabes israelenses, e os resultados acabam de ser divulgados. Entre os judeus, a descrença em processos de negociação disparou: 59,5% acreditam que elas não conduzirão à paz nos próximos anos. Além disso, 47%  se opõem com vigor a qualquer conversa com a Autoridade Palestina, a entidade que governa a Cisjordânia, enquanto apenas 24,5% aceitam a ideia em alguma medida. Os números se inverteram em relação a setembro, logo antes dos atentados. 

Não se deve concluir daí que Netanyahu e sua coalizão representam o caminho que Israel pretende seguir, uma vez que o Hamas tenha sido derrotado. 

Como todos os países, Israel tem sua cota de extremistas.  Eles estão bem representados no gabinete de Netanyahu. São políticos como Itamar Bem-Gvir, Amichai Eliahu e Bezalel Smotrich, que pertencem ao Otzma Yehudit (os dois primeiros) ou ao Partido Religioso Zionista (o último). Essas legendas abraçam ideais supremacistas, teocráticos, reacionários. 

Uma semana atrás, Amichai Eliahu causou ultraje ao dizer que a opção de lançar uma bomba atômica sobre a Faixa de Gaza não deveria ser descartada. Mais tarde, ele alegou que sua frase era “metafórica”. Netanyahu o repreendeu e, literalmente, o pôs de castigo, suspendendo sua presença em reuniões ministeriais. Mas não pode demiti-lo, porque sem o Otzma Yehudit seu governo tenderia a desabar.  

Tanto o primeiro-ministro quanto o seu governo foram desaprovados no Peace Index: 55,8% dos israelenses (judeus e árabes) disseram que o Netanyahu é ineficiente, ao passo que 57,5% têm essa opinião sobre o governo como um todo. Para a maioria dos analistas, é improvável que o grupo continue no poder uma vez encerrada a primeira e mais aguda fase da investida contra o Hamas. Não haverá perdão para o fato de eles estarem ao volante quando a matança do 7 de Outubro aconteceu. 

E depois? Essa é a questão que os Estados Unidos insistem que as autoridades de Israel respondam.

Quando o Peace Index perguntou aos israelenses qual solução para a questão palestina eles acreditam ter a maior chance de implementação no futuro próximo, a maioria (42,4%) disse que seria a manutenção da situação atual. 

Biden e Blinken já deixaram claro que não gostam dessa resposta. Eles querem um avanço na chamada “solução de dois Estados”, para que a guerra não resulte apenas na derrota do Hamas, mas na derrota da ideia que o grupo representa, equivocadamente, para muitos ocidentais: a de que Israel é um poder que merece ser atacado com violência e terror.

É aí que entram meu amigo e Ben Hur. No filme de 1959, alguém pergunta ao personagem Messala como é possível combater uma ideia. “Com outra ideia”, é a sua resposta.

  • Mais lidas
  • Mais comentadas
  • Últimas notícias
1

Associações se manifestam contra proibição de bets

Associações se manifestam contra proibição de bets
2

Amin chama Carlos Bolsonaro de “estrupício”

Amin chama Carlos Bolsonaro de “estrupício”
3

Com voto decisivo de irmão de Dino, Conselho do MPF rejeita investigação de Gonet

Com voto decisivo de irmão de Dino, Conselho do MPF rejeita investigação de Gonet
4

Janja surfa em fake news sobre Nossa Senhora Aparecida

Janja surfa em fake news sobre Nossa Senhora Aparecida
5

Governo Lula anuncia proibição de bets

Governo Lula anuncia proibição de bets
6

O preço da guinada contra as bets

O preço da guinada contra as bets
7

Globo, Band e ESPN suspendem anúncios de bets no país

Globo, Band e ESPN suspendem anúncios de bets no país
8

Flávio celebra decisão de Mendonça contra “fake news” sobre Nossa Senhora Aparecida

Flávio celebra decisão de Mendonça contra “fake news” sobre Nossa Senhora Aparecida
9

Alcolumbre tinha uma dança nova

Alcolumbre tinha uma dança nova
10

Tabet contesta decisão de Mendonça e diz que não citou Flávio

Tabet contesta decisão de Mendonça e diz que não citou Flávio
1

"Fala, meu amor": as mensagens entre Alcolumbre e Vorcaro

"Fala, meu amor": as mensagens entre Alcolumbre e Vorcaro
2

Fim das bets: a aposta eleitoral de Lula a 9 dias do 1º turno

Fim das bets: a aposta eleitoral de Lula a 9 dias do 1º turno
3

Gonet deveria ter se declarado impedido no caso Master, diz conselheira do MPF

Gonet deveria ter se declarado impedido no caso Master, diz conselheira do MPF
4

Fachin pede manifestação da PGR em investigações sobre Master e INSS

Fachin pede manifestação da PGR em investigações sobre Master e INSS
5

Lula enfim vai a Pernambuco pedir votos para João Campos

Lula enfim vai a Pernambuco pedir votos para João Campos
6

Conselho do MPF forma maioria contra afastar Gonet do caso Master

Conselho do MPF forma maioria contra afastar Gonet do caso Master
7

Advogados preveem onda de ações contra proibição das bets

Advogados preveem onda de ações contra proibição das bets
8

Tributação de bets soma R$ 15,3 bi desde 2025

Tributação de bets soma R$ 15,3 bi desde 2025
9

Amin chama Carlos Bolsonaro de “estrupício”

Amin chama Carlos Bolsonaro de “estrupício”
10

Assessor de Lula ganhou réveillon de luxo em Paraty

Assessor de Lula ganhou réveillon de luxo em Paraty
1

Governo usa WhatsApp para informar sobre fim das bets

Governo usa WhatsApp para informar sobre fim das bets
2

Palitos de abobrinha na air fryer: aprenda essa receita prática e crocante para o aperitivo de sábado

Palitos de abobrinha na air fryer: aprenda essa receita prática e crocante para o aperitivo de sábado
3

Roberto Ellery na Crusoé: Nacionalismo de chuteiras

Roberto Ellery na Crusoé: Nacionalismo de chuteiras
4

Gilmar chama Gonet de “homem honrado” e critica “ataques rasteiros”

Gilmar chama Gonet de “homem honrado” e critica “ataques rasteiros”
5

Erika Hilton tem direito de resposta exibido no Programa do Ratinho

Erika Hilton tem direito de resposta exibido no Programa do Ratinho
6

Dia de São Cosme e Damião: 7 simpatias e orações para celebrar a data

Dia de São Cosme e Damião: 7 simpatias e orações para celebrar a data
7

Criador do ‘Ministério da Verdade’, Messias defende “liberdade para criticar”

Criador do ‘Ministério da Verdade’, Messias defende “liberdade para criticar”
8

Maristela Basso na Crusoé: Nós, os outros

Maristela Basso na Crusoé: Nós, os outros
9

Hamas celebra discurso de Lula na ONU

Hamas celebra discurso de Lula na ONU
10

Márcio Coimbra na Crusoé: O tabuleiro Washington-Pequim

Márcio Coimbra na Crusoé: O tabuleiro Washington-Pequim

Tags relacionadas

Antony Blinken Autoridade Palestina Benjamin Netanyahu Cisjordânia Estados Unidos Faixa de Gaza Hamas Israel Joe Biden Palestina pesquisa de opinião
< Notícia Anterior

Ex-deputado é detido por agressão a funcionários de hotel de luxo

12.11.2023 00:00 4 minutos de leitura
Próxima notícia >

Franceses vão às ruas contra o antissemitismo

12.11.2023 00:00 4 minutos de leitura
avatar

Carlos Graieb

Carlos Graieb é jornalista formado em Direito, editor sênior do portal O Antagonista e da revista Crusoé. Atuou em veículos como Estadão e Veja. Foi secretário de comunicação do Estado de São Paulo (2017-2018). Cursa a pós-graduação em Filosofia do Direito, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Início

Seja nosso assinante

E tenha acesso exclusivo aos nossos conteúdos

Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e a Revista Crusoé.