Sobreviventes de Hiroshima criticam rearmamento do Japão
Oitenta e um anos depois, governo japonês revisa princípios pacifistas do pós-guerra em meio a tensões regionais
Nesta quinta-feira, 6, o Japão registra os 81 anos do bombardeio atômico de Hiroshima, data marcada por declarações de sobreviventes contrários ao crescente investimento militar do país. A bomba lançada pelos Estados Unidos em 6 de agosto de 1945 matou cerca de 80 mil pessoas na explosão inicial, e um segundo ataque atingiu Nagasaki três dias depois.
Oito décadas mais tarde, integrantes da Nihon Hidankyo, confederação que reúne sobreviventes das bombas nucleares, alertam que o governo japonês está abandonando gradualmente os compromissos pacifistas assumidos após o conflito.
Aumento de gastos com defesa
Desde que assumiu o cargo em outubro de 2025, a primeira-ministra Sanae Takaichi adotou medidas para reforçar a capacidade militar japonesa. Em abril de 2026, seu governo flexibilizou as regras de exportação de armamentos, autorizando a venda de armas letais — mudança que rompe com décadas de restrições adotadas no pós-guerra.
Masashi Ieshima, sobrevivente de Hiroshima aos três anos de idade e hoje presidente do braço da Nihon Hidankyo em Tóquio, associa o movimento a um risco histórico. “O recente fortalecimento militar do Japão não é diferente de recriar a corrida armamentista que levou o país ao caminho da Segunda Guerra”, afirma.
Ieshima também relaciona o discurso oficial a uma eventual disputa envolvendo Taiwan. “Fico indignado ao ver o Japão justificar seu fortalecimento militar e a flexibilização das restrições à exportação de armas pela possibilidade de um conflito em Taiwan”, diz. Para ele, a continuidade dessa política pode resultar em um novo confronto de caráter nuclear.
Debate sobre princípios antinucleares
O governo japonês avalia rever os três princípios que vedam a posse, a produção e a entrada de armas nucleares em território nacional. Segundo o Ministério da Defesa, o objetivo é ampliar a capacidade de dissuasão do país sem abandonar o caráter defensivo de sua política externa, diante do que classifica como ambiente de segurança mais delicado na região, incluindo a atuação da China nos mares do Leste e do Sul asiático.
Para o professor de ciência política Koichi Nakano, da Universidade Sophia, o argumento de que a China representa ameaça direta ao Japão não tem respaldo amplo da população. Segundo o docente, o país estaria sendo conduzido a se alinhar a potências ocidentais contra nações classificadas como rivais estratégicas, quando deveria priorizar o diálogo.
A mobilização contrária a esse cenário tem crescido entre gerações mais jovens. Em 10 de julho, cerca de 27 mil pessoas protestaram em frente ao Parlamento japonês, em Tóquio, contra o avanço da agenda militar do país.
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