Qual é o plano de Trump?
"Trump tem a obrigação de dizer aos americanos que nova ordem ele acha que está construindo", diz 'The Wall Street Journal', que sugere terça-feira, 4, como data
The Wall Street Journal questionou em editorial publicado no domingo, 2, qual seria o plano de Donald Trump ao se alinhar com a Rússia na questão da invasão da Ucrânia.
No texto, intitulado “A velha ordem mundial de Trump”, o jornal diz que “com suas primeiras semanas de volta ao cargo, e especialmente depois da briga de sexta-feira no Salão Oval com o presidente da Ucrânia, está claro que o presidente Trump tem projetos para uma nova ordem mundial”, e sugere:
“Talvez ele pudesse compartilhar essa visão com o país quando se dirigir ao Congresso na terça-feira.”
“América em declínio”
Segundo os editorialistas do WSJ, “a estratégia do Sr. Trump parece estar caminhando em direção à de Tucker Carlson e JD Vance, que veem a América em declínio e incapaz de liderar ou defender o Ocidente”.
O presidente americano preetnderia “lavar as mãos em relação à Ucrânia”, encorajando o ditador russo, Vladimir Putin‘ “a insistir em termos ainda mais severos para um acordo de cessar-fogo”.
“Trump parece principalmente preocupado em reabilitar Putin nos conselhos mundiais, como o G-7. Ele quer uma cúpula antecipada com o russo, embora Putin não tenha feito concessões sobre a Ucrânia ou qualquer outra coisa”, diz o editorial.
E os aliados?
A posição do republicano em relação à Rússia contrasta com a que ele dispensa aos aliados Canadá e México, destaca o jornal:
“Ele planeja tarifas de 25% sobre o Canadá e o México, violando seu próprio acordo comercial USMCA, e seu secretário de defesa ameaçou invadir o México para perseguir cartéis de drogas. Ele quer atingir a Europa Ocidental com pesadas tarifas sobre seus automóveis e aplicar tarifas recíprocas no resto do mundo comercial.”
China
O WSJ chama atenção para o fato de que essas tarifas são mais severas do que as impostas à China e diz que Trump “está claramente cortejando Xi Jinping, o líder do Partido Comunista, chamando-o de grande líder e falando sobre um novo entendimento mútuo”.
“Ele não mostrou interesse semelhante em defender Taiwan e disse no passado que a China pode facilmente dominar a ilha democrática em um conflito. Observando Trump e a Ucrânia, os líderes de Taiwan e do Japão deveriam estar profundamente preocupados”, segue o editorial.
É esse o plano?
O jornal lembra ainda a pressão de Trump sobre o Canal do Panamá e a Groenlândia para dizer que as medidas consideradas pelo presidente americano “sugerem uma visão de mundo que há muito tempo é o objetivo dos isolacionistas americanos: deixar a China dominar o Pacífico, a Rússia dominar a Europa e os EUA dominarem as Américas.
“Tudo isso representaria um retorno épico ao mundo de competição entre grandes potências e equilíbrio de poder que prevaleceu antes da Segunda Guerra Mundial. É menos um mundo novo e corajoso [o brave new world de Aldous Huxley] do que um retorno a um velho e perigoso”, analisa o editorial.
O WSJ reconhece que “Trump não articulou isso, mas alguns dos intelectuais que o cercam sim”.
“Elbridge Colby, nomeado para o cargo principal de estratégia no Pentágono, argumentou que os EUA devem deixar a Europa e o Oriente Médio por conta própria para se concentrar na região Ásia-Pacífico. Mas Colby também disse que a Coreia do Sul talvez precise se defender sozinha, e disse em uma carta para nós [WSJ] no ano passado que ‘Taiwan não é, por si só, de importância existencial para a América'”, segue o texto.
“Abandonar a Ucrânia”
O jornal cita o vice-presidente JD Vance, que tumultuou a reunião com Zelensky, como “o promotor mais vigoroso da estratégia de abandonar a Ucrânia”.
“Ross Douthat, o colunista do The New York Times que se tornou o Boswell de Vance, diz que o Vice-Presidente e o Presidente estão apenas ‘eliminando ilusões de política externa’. Ele diz que eles acreditam que a América está ‘sobrecarregada’ e precisa ‘recalibrar e recuar'”, diz o editorial, que segue:
“No entanto, não é isso que nenhum dos líderes está dizendo abertamente. Trump diz que está tornando a América grande novamente, não recuando da defesa da liberdade. Ele diz que quer ‘paz’, mas é uma paz com honra, ou a paz do túmulo para a Ucrânia e a acomodação à dominação chinesa no Pacífico? E por que ele não está aumentando os gastos com defesa?”
Ilusões
“Se Trump e Vance realmente estão ‘eliminando’ ilusões, por que não ter a coragem de dizer quais são essas ilusões?”, segue questionando o jornal, que cogita: “Talvez seja porque tal recuo pode não ser tão popular quanto promessas vagas de paz. E talvez porque o recuo americano pode não ser tão pacífico quanto eles pensam”.
“Se a Rússia impuser a paz em seus termos na Ucrânia, espere que a Rússia invada outros lugares no futuro e que outros estados mais fortes tomem territórios de seus vizinhos. Espere que os aliados da América busquem novas relações comerciais e de segurança que não dependam dos EUA e possam entrar em conflito com os interesses americanos”, projeta o WSJ.
O editorial termina assim:
“O Japão terá pouca escolha a não ser se tornar uma potência nuclear para deter a China, e haverá outros. Como Charles Krauthammer disse famosamente, o declínio é uma escolha. Trump tem a obrigação de dizer aos americanos que nova ordem ele acha que está construindo. Então podemos ter um debate sobre suas intenções e suas consequências. A noite de terça-feira seria um bom momento para deixar claras suas ambições.”
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