Márcio Coimbra na Crusoé: A teia do Kremlin
Brasília acusa os americanos de interferência nas eleições brasileiras ao mesmo tempo que recebe o mestre da guerra suja de desinformação russa
Na alta geopolítica, a ingenuidade é um luxo caríssimo e a coincidência, uma ilusão para amadores.
Quando o Palácio do Planalto recebe, de portas fechadas e fora da agenda oficial, o homem apontado pelas agências de inteligência do Ocidente como o número dois do Kremlin, o recado emitido ao mundo vai muito além do protocolo diplomático.
A presença silenciosa de Nikolai Patrushev em Brasília, em meio a uma escalada de atritos com Washington e a poucos meses do pleito eleitoral, não é um fato isolado.
É o ponto de convergência de uma estratégia russa de longo alcance que envolve guerra híbrida, dependência energética e a instrumentalização do território brasileiro.
Para compreender a gravidade do movimento, é preciso conectar os pontos de um mosaico que vem sendo montado há anos à vista de todos.
A escolha do Brasil pelo aparato de segurança do Kremlin não é recente. O país tornou-se o principal entreposto global para a “lavagem de identidades” do lendário programa de espiões “ilegais” da Rússia.
Casos como o de Sergey Cherkasov (que adotou a identidade de Victor Muller) e Mikhail Mikushin (o “acadêmico” José Assis Giammaria) demonstraram como a inteligência russa aproveitou brechas nos cartórios e na burocracia brasileira para fabricar passaportes límpidos, capazes de infiltrar agentes no Tribunal Penal Internacional e em centros estratégicos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Mas a exploração russa não parou na documentação falsa, avançou sobre o capital humano.
Promessas enganosas de trabalho e salários vultosos atraíram jovens brasileiros para o front, onde foram coagidos a assinar contratos em russo e alocados em brigadas de assalto em Luhansk e Donetsk.
O padrão é cristalino: Moscou enxerga o Brasil como um território operacional conveniente, de onde pode extrair desde identidades insuspeitas para sua rede de espionagem até infantaria descartável para sua envelhecida máquina de guerra.
A dimensão mais profunda e pragmática…
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