Márcio Coimbra na Crusoé: A ilusão da neutralidade
Quando a pressão do sistema internacional atinge o ponto de ebulição, a suposta solidariedade entre as potências médias evapora
O debate sobre a ordem global está saturado de anacronismos.
Acadêmicos e diplomatas, apegados às ilusões institucionais do final do século 20, continuam a pregar as virtudes de um mundo multipolar que, na realidade factual de 2026, não existe.
A paisagem internacional consolidou-se em uma bipolaridade rígida, um campo gravitacional de soma zero dominado por Washington e Pequim.
Para as chamadas potências médias — nações com peso econômico e regional significativos, mas sem escala para projeção de poder global —, o tempo da ambiguidade estratégica acabou. O disfarce do pragmatismo romântico foi arrancado pela dinâmica da realpolitik.
Historicamente, o manual de sobrevivência das potências médias consistia na prática do hedging: uma cobertura de riscos onde se terceirizava a segurança para a arquitetura ocidental liderada pelos EUA enquanto se colhiam os frutos do apetite comercial da China.
Esse jogo duplo dependia de uma premissa que desmoronou: a de que as duas superpotências tolerariam a indefinição em nome da estabilidade dos mercados.
Hoje, a competição sino-americana não é uma disputa por fatias de mercado, é uma colisão por hegemonia tecnológica, militar e normativa. Nesse cenário, o que as potências médias chamavam de neutralidade é interpretado por Washington e Pequim como desalinhamento ou, pior, deserção.
Quando a pressão do sistema internacional atinge o ponto de ebulição, a suposta solidariedade entre as potências médias evapora.
A ideia de que esses países podem se unir em coalizões ad hoc ou blocos independentes para contrabalançar os dois gigantes é uma fantasia que ignora como o poder bruto opera na anarquia internacional.
Diante de tarifas aduaneiras punitivas, sanções financeiras ou restrições ao acesso a mercados essenciais, o comportamento factual dessas nações é a dispersão. O cálculo de sobrevivência individual anula a ação coordenada.
É sob essa ótica desprovida de sentimentalismos…
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