Israel leva memória do Holocausto à Alemanha
Yad Vashem instalará unidades em Munique e Leipzig em momento de crescimento do antissemitismo e negacionismo histórico
O maior memorial dedicado às vítimas do Holocausto no mundo anunciou nesta quinta-feira, 28, a abertura de dois centros educacionais em solo alemão — o primeiro passo da instituição israelense para além das fronteiras de Israel.
As cidades de Munique e Leipzig foram escolhidas para receber as unidades do Yad Vashem, que devem ser inauguradas em até três anos com suporte financeiro do governo federal alemão. A decisão responde ao avanço do negacionismo histórico e ao crescimento dos casos de antissemitismo no país.
Munique e Leipzig como polos de memória
A escolha de Munique para sediar a unidade principal levou em conta fatores históricos e logísticos. A cidade foi o berço do partido nazista e dispõe, atualmente, de infraestrutura considerada adequada para o projeto: alto padrão de segurança, apoio financeiro do governo do estado da Baviera, presença de consulado israelense e existência de um centro de documentação do nazismo.
Leipzig, por sua vez, receberá uma unidade de menor porte, com foco na formação de professores e jovens. Localizada no leste alemão, a cidade integra uma região onde discursos contrários à cultura de memória sobre o Holocausto têm maior aceitação (e cada vez mais apelo, com a ascensão do AfD).
Segundo o Yad Vashem, a ideia de expandir o trabalho do memorial para a Alemanha surgiu em 2023, durante um encontro entre o presidente da instituição, Dani Dayan, e o então chanceler federal Olaf Scholz.
Perspectiva das vítimas no centro do debate
Um dos objetivos declarados dos novos centros é deslocar o eixo narrativo predominante na cultura de memória alemã — historicamente centrada na figura dos perpetradores — para a perspectiva das próprias vítimas.
“Queremos, com o centro educacional, trazer para o diálogo da cultura de memória na Alemanha um quadro mais amplo do que até agora. Isso incluirá principalmente as vozes das vítimas e menos as dos perpetradores”, declarou Yael Richler-Friedman, diretora pedagógica do Instituto Internacional de Educação sobre o Holocausto do Yad Vashem.
De acordo com informações do Yad Vashem, os visitantes serão estimulados a examinar questões humanas presentes nas experiências das vítimas, com o objetivo de promover reflexão sobre identidade e desenvolver empatia.
O presidente da instituição, Dani Dayan, contextualizou o momento da iniciativa: “À medida que nos afastamos cada vez mais da época dos testemunhos dos sobreviventes, uma educação sobre o Holocausto baseada em dados históricos é mais importante do que nunca”.
Uma pesquisa realizada em 2025 pela Jewish Claims Conference em oito países europeus apontou que o desconhecimento sobre o Holocausto é mais acentuado entre os jovens — dado citado pela instituição como parte da justificativa para a expansão.
Apoio político e contexto diplomático
O anúncio foi recebido com declarações de apoio por representantes dos dois estados envolvidos. O governador da Baviera, Markus Söder, da União Social Cristã (CSU), afirmou que a abertura da unidade em Munique representa “um claro compromisso com a democracia e contra o antissemitismo”.
Já o governador da Saxônia, Michael Kretschmer, da União Democrata Cristã (CDU), indicou que Leipzig pode funcionar como ponto de articulação com países da Europa Oriental, como Polônia e República Tcheca.
O presidente federal alemão, Frank-Walter Steinmeier, e o presidente de Israel, Isaac Herzog, emitiram declaração conjunta em apoio ao projeto. “Esse novo centro educacional sobre o Holocausto será um complemento importante ao trabalho significativo do Yad Vashem de documentar as atrocidades do Holocausto, preservar a memória de todos os assassinados e fortalecer a humanidade”, afirmaram.
Fundado em 1953 por decisão do Parlamento israelense, o Yad Vashem funciona como memorial, espaço expositivo e instituto de pesquisa, sediado em Jerusalém.
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