Coreia do Norte pode produzir armas químicas em larga escala
Pesquisa britânica cruza 30 mil documentos e aponta infraestrutura para produção de sarin e VX em larga escala
Um estudo divulgado na semana passada indica que a Coreia do Norte mantém instalações industriais, universitárias e governamentais com equipamentos e matérias-primas suficientes para a produção de diferentes tipos de agentes químicos de guerra, incluindo sarin e VX.
A pesquisa, conduzida pelo think tank britânico Royal United Services Institute (RUSI) no âmbito do Projeto Antracite, e publicada no site especializado 38 North, não confirma fabricação ativa no momento, mas aponta para o que chama de “capacidade industrial integrada” — uma convergência de múltiplos indicadores que, segundo os autores, justifica monitoramento contínuo.
O que o relatório encontrou
A base do estudo está na análise de código aberto: mais de 30 mil patentes e artigos científicos foram cruzados para traçar um panorama do potencial bélico químico norte-coreano. Segundo o relatório, a conclusão central não repousa em uma prova isolada, mas na soma de sinais distintos apontando na mesma direção.
“Em conjunto, a conclusão mais surpreendente desta análise não é a presença de uma única ‘prova irrefutável’, mas sim a convergência de múltiplos indicadores distintos que apontam para uma capacidade industrial integrada”, afirma o documento, de acordo com a DW.
Estimativas já em circulação entre analistas apontam que o regime teria entre 2.500 e 5.000 toneladas de armamentos químicos estocados.
Margaret Kosal, diretora de estudos de pós-graduação do Instituto de Tecnologia da Geórgia e ex-assessora das administrações de George W. Bush e Barack Obama, afirma que o país é capaz de produzir mostarda de enxofre em grande volume, além de quantidades variáveis de agentes nervosos: “Eles provavelmente conseguem produzir grandes quantidades de agentes nervosos como o sarin. E alguma quantidade de VX”, disse Kosal.
Histórico de uso e cenários de conflito
A disposição do regime para empregar esse tipo de armamento não é apenas teórica. Em 2017, membros do regime utilizaram o agente nervoso VX para assassinar Kim Jong-nam, irmão do líder norte-coreano Kim Jong-un, no aeroporto de Kuala Lumpur, na Malásia. “É absolutamente claro que a Coreia do Norte pode produzir armas químicas e já o fez, sendo o uso do VX em 2017 a confirmação disso”, declarou Kosal.
De acordo com Dan Pinkston, professor de relações internacionais da Universidade Troy em Seul e autor de relatório sobre o tema publicado pelo International Crisis Group em 2009, o regime recorreria a essas armas antes de qualquer ataque nuclear em um cenário de conflito aberto.
“Um ataque nuclear do Norte seria respondido com uma retaliação esmagadora que acabaria com o regime. Mas se um conflito estivesse em curso contra o Norte, e as tropas sul-coreanas estivessem avançando sobre Pyongyang, então o Norte poderia usar armas químicas para prejudicar ou atrasar essa operação”, explicou.
Kosal aponta que o uso mais provável seria contra forças militares sul-coreanas ao longo da fronteira, mas que ataques a centros civis, como Seul, estariam dentro do planejamento do regime em caso de guerra.
Avaliação internacional
Ryo Hinata-Yamaguchi, professor-associado da Universidade Internacional de Tóquio especializado em assuntos militares, avalia que as informações do relatório ganham peso por se somarem a relatos de desertores de alto escalão.
Para ele, o impacto psicológico dessas armas é parte do cálculo estratégico de Pyongyang. “Acredito que eles usariam qualquer recurso para equilibrar a situação contra um adversário tecnologicamente superior, portanto, de forma preocupante, a probabilidade de a Coreia do Norte usar armas químicas em condições de guerra é bastante alta”, afirmou.
A Coreia do Norte não é signatária da Convenção sobre Armas Químicas. Em paralelo ao debate sobre armamentos químicos, o país realizou oito testes de mísseis somente em 2026, incluindo mísseis balísticos. Em março deste ano, Kim Jong-un declarou que o status nuclear do país é “irreversível”.
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