IA vira ferramenta de planejamento para extremistas
Levantamento aponta uso crescente de chatbots por grupos terroristas em pesquisa, vigilância e preparação de ataques
Organizações extremistas ligadas ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda passaram a empregar chatbots de inteligência artificial não apenas na produção de propaganda, mas também em etapas de planejamento operacional, segundo levantamento da Tech Against Terrorism, observatório apoiado pelo escritório de contraterrorismo da ONU.
A entidade testou mais de 2.300 solicitações baseadas em casos reais em 27 modelos de IA e constatou que 32% das consultas geraram respostas com conteúdo aproveitável para fins ilícitos, número que chegou a 42% quando o pedido era apresentado como pesquisa acadêmica.
Mudança de padrão desde 2025
Até três ou quatro anos atrás, o emprego de inteligência artificial por organizações como Estado Islâmico e Al-Qaeda concentrava-se na criação de vídeos, memes, podcasts e material de desinformação voltado à radicalização de simpatizantes.
Esse cenário se alterou ao longo de 2025, quando especialistas da publicação Militant Wire registraram um número maior de episódios envolvendo o uso de ferramentas de IA para pesquisa, planejamento e preparação de ataques.
Casos com mortes, danos materiais e conspirações interrompidas antes da execução foram documentados nos Estados Unidos, no Canadá, em Israel, na Finlândia e na Áustria.
Um especialista ouvido pelo Parlamento britânico em 2025, durante inquérito sobre o tema, declarou que “processos judiciais e relatórios periciais documentam cada vez mais conversas nas quais suspeitos pedem a modelos de linguagem instruções para fabricação de bombas, validação ideológica ou justificativas para ataques”.
O uso não se restringe a indivíduos isolados. Pesquisadores que acompanham o grupo Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), ligado à Al-Qaeda e sediado no Mali, avaliam que a organização recorreu a inteligência artificial para auxiliar na modificação de drones.
Em análise publicada em junho pela Global Network on Extremism and Technology, os pesquisadores Yuri Neves e Emily Klein, da organização americana Moonshot, identificaram canais no Telegram nos quais extremistas de diferentes vertentes compartilham prompts, trocam links de conversas com chatbots e chegam a dividir custos de assinaturas do ChatGPT.
Papel dos chatbots nos ataques de “lobos solitários”
O pesquisador Rueben Dass, da Escola de Estudos Internacionais S. Rajaratnam, em Singapura, observa mudança no papel de intermediários humanos nesse tipo de radicalização: “Antes existia o conceito dos planejadores virtuais, que eram pessoas localizadas em zonas de conflito que entravam em contato com outras pelas redes sociais para incentivá-las a cometer ataques”.
Dass pondera, porém, que “não acho que se possa dizer que os seres humanos tenham sido substituídos, mas, até certo ponto, esses atores isolados passaram a recorrer à IA, como o ChatGPT, para obter esse tipo de apoio”.
O analista Moustafa Ayad, do Institute for Strategic Dialogue, relata que o veículo de mídia do Estado Islâmico Voice of Khorasan publicou, no ano passado, orientações sobre uso de inteligência artificial, e que existe “um grupo dedicado a tentar burlar os sistemas de IA (jailbreaking) e utilizá-los para apoiar o planejamento operacional e a preparação de ações”.
Ainda não há consenso sobre o grau de risco representado pelo fenômeno. Adam Hadley, diretor da Tech Against Terrorism, argumenta que “uma pessoa determinada acabará encontrando a maioria das informações que procura” mesmo sem recorrer a chatbots, mas destaca que “o que esses modelos de IA mudam é a velocidade, a facilidade e a abrangência”.
Para Hadley, a diferença está no formato conversacional: “Uma coisa é encontrar um manual de fabricação de bombas. Outra completamente diferente é ter um instrutor”.
A pesquisadora Emily Klein afirma que os modelos de linguagem devem ser entendidos como continuidade de outras tecnologias já incorporadas por grupos extremistas, como a internet e aplicativos de mensagens criptografadas.
Para Klein, “não há necessariamente evidências de que a IA esteja criando mais terroristas”, mas a tecnologia pode acelerar etapas anteriores ao planejamento de ataques, ao validar ressentimentos e reforçar crenças já existentes em potenciais agressores.
Dass acrescenta que o uso de IA não garante, por si só, o sucesso de uma ação terrorista, já que esse resultado depende de fatores diversos. Ainda assim, ele prevê aumento no número de ataques com algum grau de envolvimento de ferramentas de inteligência artificial.
Hadley reforça essa projeção e chama atenção para o fato de que parte relevante das pessoas radicalizadas na Europa, no Reino Unido e nos Estados Unidos é formada por adolescentes e crianças, o que, para o diretor da Tech Against Terrorism, torna questão de tempo até que os chatbots assumam papel mais expressivo nesse processo.
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