Tribunal alemão condena casal por escravizar crianças yazidis
Corte de Munique impõe prisão perpétua a homem e nove anos e meio a ex-companheira por genocídio contra minoria religiosa do Iraque
Um tribunal regional superior da Baviera, no sul da Alemanha, condenou nesta segunda-feira, 13, um casal de nacionalidade iraquiana pela compra, escravização e abuso sexual de duas meninas da etnia yazidi.
Os crimes ocorreram no Iraque e na Síria entre 2015 e 2017, período em que os réus integravam o grupo extremista Estado Islâmico.
O homem recebeu pena de prisão perpétua; a mulher, que já foi sua companheira, foi sentenciada a nove anos e meio de reclusão.
Vítimas tinham entre 5 e 12 anos
As duas meninas foram adquiridas pelo casal quando a mais velha tinha 12 anos e a mais nova, entre 5 e 7 anos. Segundo o relato apresentado no julgamento, os réus submeteram as crianças a trabalho forçado e tortura, além de abuso sexual atribuído ao homem, apontado como executor direto, enquanto a mulher teria colaborado com essa violência.
O homem trabalhava como barbeiro em Munique antes de se radicalizar em uma mesquita da cidade, de acordo com as investigações. O casal chegou a retornar à Alemanha, deixando as duas vítimas sob custódia de outros membros do Estado Islâmico em uma residência próxima ao deserto sírio. Os dois foram detidos na Baviera em abril de 2024 e permanecem presos desde então.
A defesa da mulher argumentou, no início do processo, que ela também teria sido vítima do ex-marido, e a ré chegou a pedir desculpas durante a audiência. Já o homem optou por não depor perante o tribunal.
Depoimentos relatam brutalidade e humilhação
Durante a sessão final, foram lidos trechos dos depoimentos das duas vítimas. Segundo a DW, a mais velha, que participou do processo como assistente de acusação após ser resgatada mediante pagamento, declarou: “Nós, yazidis, éramos escravas. Até os cães valiam mais do que nós. Nossa infância foi marcada apenas pela dor”.
Ela relatou ainda ter sido alvo de comentários depreciativos do réu e de conhecidos antes da compra, como a frase “Comprem-na, ela ainda não foi estuprada”.
Um representante do Ministério Público classificou o caso como uma “violência monstruosa tão distante de qualquer noção de humanidade que parece irreal”.
Primeira condenação por conversão forçada
O juiz Philipp Stoll destacou que a sentença representa a primeira decisão judicial na Alemanha sobre conversão religiosa forçada, já que as vítimas foram obrigadas a abandonar o yazidismo em favor do islamismo. Segundo o magistrado, a caracterização de genocídio dispensa a ocorrência de morte, aplicando-se também quando há transferência forçada de crianças entre grupos.
O tribunal observou que uma das vítimas perdeu domínio de sua língua nativa em razão do trauma sofrido, necessitando hoje de intérprete para se comunicar com a própria mãe.
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