Estudo aponta falhas do governo após terremoto na Venezuela
Miranda Center for Democracy relaciona descoordenação estatal e restrições impostas durante a emergência a um agravamento do desastre
Um relatório do centro de estudos Miranda Center for Democracy concluiu que o governo venezuelano não colocou em prática os protocolos previstos para situações de catástrofe após o duplo terremoto que atingiu o país em 24 de junho de 2026.
Segundo o documento, a falta de coordenação nas primeiras 72 horas — período apontado como determinante para o resgate de vítimas — contribuiu para ampliar os efeitos de um dos piores desastres da história recente da Venezuela.
A entidade, formada por venezuelanos e sediada em Washington, baseou suas conclusões em entrevistas com especialistas em gestão de risco, socorristas e agentes públicos, além de dados de organismos internacionais.
Divergência entre números oficiais
O governo interino contabiliza 5.208 mortos. Já o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) calculou em 70% a chance de que o número real ultrapasse 10 mil.
O relatório cita projeções da ONU e do Comitê Internacional de Resgate que apontam ao menos 50 mil desaparecidos, embora um levantamento civil registre cerca de 30 mil casos sem localização.
Segundo a ONU, os terremotos afetaram até 6,76 milhões de pessoas, incluindo cerca de 2 milhões de moradores da região metropolitana de Caracas.
A organização estima em 680 mil o número de crianças que necessitam de assistência e em 1,8 milhão o total de pessoas que dependem de ajuda humanitária. Uma análise da Nasa projetou danos ou destruição em 58.870 construções, ante pouco mais de mil reconhecidas oficialmente pelo governo.
Ausência de comando e falta de equipamentos
De acordo com o Infobae, o estudo afirma que o cenário exigia o acionamento imediato do Sistema Nacional de Proteção Civil, a classificação formal da emergência e a centralização das operações sob autoridades civis com experiência em desastres, cabendo às Forças Armadas apenas funções logísticas, como manter em funcionamento os aeroportos de Maiquetía e La Carlota.
Segundo o documento, essa estrutura não chegou a operar de forma efetiva. Embora um Estado-Maior de Emergência tenha sido anunciado na noite do terremoto, os pesquisadores afirmam que a iniciativa não resultou em ações concretas no terreno. A Proteção Civil, dirigida por autoridades militares há anos, teria perdido capacidade técnica.
Com isso, a busca por vítimas ficou concentrada em moradores, bombeiros voluntários e equipes internacionais de 28 países — ao todo, 51 grupos estrangeiros atuaram na área.
Um integrante da Proteção Civil, citado no relatório, descreveu a falta de recursos das equipes locais: “Não temos as ferramentas, não temos a técnica, não temos a tecnologia… estamos na Idade da Pedra”.
Conforme o levantamento, diversas unidades atuavam havia anos com apenas uma fração de sua capacidade original, sem veículos, maquinário especializado ou equipamentos hidráulicos para remoção de estruturas de grande porte.
Nos cinco primeiros dias após o abalo, o principal registro de desaparecidos foi organizado por voluntários e pela diáspora venezuelana, diante da falta de um sistema oficial de identificação.
O documento traça ainda um paralelo com a tragédia de Vargas, de 1999, que motivou reformas na gestão de riscos posteriormente enfraquecidas, segundo os autores.
Construções em áreas de risco e restrições à emergência
Um trecho do relatório trata da Gran Misión Vivienda Venezuela, programa habitacional do governo.
O centro de estudos afirma que conjuntos residenciais foram erguidos em áreas aluviais de La Guaira já identificadas como vulneráveis, sem auditorias independentes sobre normas antissísmicas, com cálculos estruturais mantidos sob sigilo.
Engenheiros já haviam alertado sobre riscos após um sismo em 2017. Um caso documentado envolve oito torres de um conjunto residencial, das quais seis ruíram por completo.
A investigação também menciona medidas atribuídas ao governo interino durante a resposta à emergência: militarização de La Guaira, restrições a voluntários e equipes de resgate, entraves à entrada de brigadas estrangeiras, ameaças a jornalistas, suspensão temporária do acesso de imprensa e ONGs às áreas afetadas, além de denúncias de apreensão de ajuda humanitária e cobranças irregulares em necrotérios.
O relatório acrescenta que restrições ao acesso à informação persistiram durante o período, e recorda que a Missão Internacional Independente de Apuração de Fatos sobre a Venezuela e a Anistia Internacional pediram o fim das limitações à cobertura jornalística e ao acesso humanitário.
Por fim, o Miranda Center sustenta que o país dispunha de recursos para reforçar sua capacidade de resposta a desastres, citando investimentos superiores a US$ 1 bilhão em videovigilância, aquisição de caminhões pesados e gastos na Gran Misión Vivienda Venezuela — verbas que, segundo o documento, não estiveram disponíveis no momento da emergência.
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