Uma montanha de quase 1.400 metros desapareceu: a cidade mineira que trocou a paisagem pelo lucro e viu nascer o maior poeta do Brasil
Onde o progresso destruiu a natureza mas a cultura venceu
No coração do Quadrilátero Ferrífero, a 110 km de Belo Horizonte, Itabira guarda uma das histórias mais singulares de Minas Gerais. A cidade viu nascer o maior poeta brasileiro, deu origem à maior mineradora da América Latina e, no meio do caminho, perdeu uma montanha inteira de 1.385 metros de altitude.
A montanha que sumiu do mapa
O Pico do Cauê, cujo nome vem de um dialeto africano que significa “irmãos”, se erguia a 1.385 metros acima do nível do mar e tinha um brilho azulado que guiava viajantes desde o século XVIII. O minério de ferro exposto na rocha refletia o sol e batizou a cidade: Itabira, do tupi, significa “pedra que brilha”.
Os irmãos Francisco e Salvador de Faria Albernaz fundaram o povoado por volta de 1720, atrás do ouro que descia pelos córregos da base do pico. O ouro secou no fim do século XVIII, mas o ferro era o que valia. Em 1911, a inglesa Itabira Iron Ore Company obteve concessão federal para explorar as jazidas.
Em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial, o presidente Getúlio Vargas nacionalizou as minas e criou a Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale. Em 1973, a Mina do Cauê já era a maior frente de extração de minério de ferro do hemisfério ocidental. No início da década seguinte, o pico simplesmente não existia mais. No lugar da montanha, restou uma cratera profunda, hoje estampada na bandeira do município.

O maior poeta brasileiro nasceu em uma rua de terra
Carlos Drummond de Andrade nasceu na cidade em 1902 e passou ali os primeiros 13 anos de vida. As memórias da infância, em ruas de terra e casarões coloniais, alimentaram boa parte de sua obra. Em 1930, no livro Alguma Poesia, ele já escrevia o verso que virou marca da cidade: “Cada um de nós tem seu pedaço no Pico do Cauê”.
Em 1973, com a montanha praticamente pulverizada, o poeta publicou A Montanha Pulverizada, no qual narra o desaparecimento da serra como quem perde um parente. Drummond foi crítico declarado da mineração predatória e chegou a fazer campanha contra a Vale nos anos 1950, conforme registros publicados pela Câmara dos Deputados.
Durante anos, conterrâneos o trataram como traidor por criticar a empresa que sustentava a cidade. Hoje, o mesmo poeta dá nome a um dos roteiros culturais mais completos do estado.

Como é viver na cidade do ferro hoje?
O município oferece infraestrutura de cidade média e qualidade de vida considerada alta. Tem cerca de 113 mil habitantes, PIB per capita acima da média estadual e qualidade de vida classificada como alta em rankings recentes.
A Vale ainda responde por cerca de 60% da receita municipal e gera milhares de empregos diretos e contratados. A rede de saúde local atende municípios vizinhos e a Universidade Federal de Itajubá (Unifei) mantém um campus na cidade, com cursos voltados para engenharia e tecnologia. A cidade vive uma transição econômica, já que as jazidas devem se esgotar nas próximas décadas.
A contrapartida da bonança está visível em qualquer mirante. Minas a céu aberto circundam o perímetro urbano e o pó do minério paira sobre superfícies e roupas. O paradoxo é antigo: progresso e perda dividem a mesma paisagem.
Os reconhecimentos da terra de Drummond
O município faz parte de dois roteiros oficiais de turismo cultural em Minas. Está no Caminho dos Diamantes da Estrada Real, rota histórica que ligava o sertão mineiro à corte portuguesa, e integra a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, reconhecida pela UNESCO em 2005 como área de conservação ambiental e cultural.
A Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), instituída em 1985, administra o memorial dedicado ao poeta e mantém o Museu de Território Caminhos Drummondianos, conjunto de 44 placas de ferro fundido espalhadas por 7 km de centro histórico. Cada placa carrega um verso ligado a um lugar que inspirou o autor, e o memorial recebe mais de 15 mil visitantes por ano.
O que fazer na terra do poeta?
A cidade reúne em poucos quilômetros a memória de Drummond, paisagens da Mata Atlântica preservada e a marca dura da mineração. Os atrativos misturam cultura, natureza e arquitetura.
Entre os pontos turísticos mais procurados do destino, destacam-se:
- Memorial Carlos Drummond de Andrade: projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer, inaugurado em 1998 na encosta leste do Pico do Amor, abriga manuscritos, primeiras edições e a máquina de escrever do poeta.
- Casa de Drummond: residência onde o poeta viveu a infância, no centro histórico, hoje aberta à visitação.
- Caminhos Drummondianos: percurso de 7 km com 44 placas-poema de ferro fundido, cada uma com cerca de 240 quilos, declamadas por jovens do projeto Drummonzinhos.
- Cratera do antigo Pico do Cauê: mirante que mostra a dimensão da mina que substituiu a montanha, símbolo da bandeira municipal.
- Distrito de Ipoema: a 42 km do centro, reúne cerca de 50 cachoeiras catalogadas, com destaque para a Cachoeira Alta, de aproximadamente 110 metros de queda.
- Serra dos Alves: vilarejo na divisa com a Serra do Cipó, com cânions, mirantes e trilhas de acesso moderado.
- Parque Estadual Mata do Limoeiro: 2.056 hectares de Mata Atlântica e Cerrado preservados, voltado para o ecoturismo.
Quem deseja conhecer as ladeiras históricas e curiosidades da cidade de Carlos Drummond de Andrade, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Dúvidas de Beleza, onde a Apresentadora mostra o centro histórico, a Catedral e um tour pela Biblioteca Municipal em Itabira, Minas Gerais:
Quando é a melhor época para visitar Itabira
O clima de Itabira é tropical de altitude, com verões quentes e chuvosos e invernos secos e amenos. A média do ano fica entre 15°C e 27°C, e o inverno é o período mais indicado para os roteiros culturais a céu aberto, segundo o Climatempo.
Quem vai pelas cachoeiras de Ipoema encontra o melhor volume de água no fim do verão. Já quem prioriza os percursos do centro histórico e as trilhas longas tem mais sol e estradas firmes entre maio e agosto.
Veja como o clima se comporta na terra de Drummond ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar até a terra de Drummond
A cidade fica a aproximadamente 110 km de Belo Horizonte, distância que corresponde a cerca de 2 horas de carro pela BR-381 seguida da MG-129. O acesso é asfaltado em todo o trecho e atravessa parte do Quadrilátero Ferrífero.
Quem chega de avião pode pousar no Aeroporto Internacional de Confins e seguir de carro alugado, em viagem que leva pouco mais de 90 minutos. A rodoviária da capital também oferece linhas diárias para o município, com tempo médio de 3 horas de percurso.
Vale a pena conhecer Itabira
Poucos lugares no Brasil traduzem com tanta força o choque entre paisagem e progresso. A cidade da pedra que brilha viu uma montanha desaparecer, viu nascer o poeta que melhor escreveu sobre essa perda e seguiu existindo no meio dessa contradição.
Você precisa atravessar a serra até Itabira para entender de perto o que Drummond quis dizer quando escreveu que cada itabirano carrega um pedaço do Cauê no peito.
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