Neve em alguns invernos e raízes no norte da Itália: essa cidade brasileira fabrica ônibus que rodam em mais de 140 países
A influência italiana continua presente na cultura e na gastronomia
Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, nasceu como colônia de agricultores italianos e virou a segunda cidade mais populosa do estado sem perder o sotaque de origem. A 817 metros de altitude, ela combina invernos de serra, uma indústria de alcance global e serviços públicos que a colocam entre as cidades mais competitivas do país.
Por que a cidade gaúcha parece um pedaço da Europa na serra?
A resposta começa em 1875, quando as primeiras famílias vindas do Vêneto, no norte da Itália, subiram a Serra Gaúcha para ocupar lotes demarcados pelo governo imperial. Em 1877, o núcleo recebeu o nome de Colônia Caxias. A herança ficou na mesa e no talian, dialeto de base vêneta reconhecido como patrimônio imaterial do município em 2019.
O clima completa a sensação: é oceânico, classificado como Cfb no sistema de Köppen, o mesmo tipo que predomina em boa parte da Europa ocidental. Em alguns anos, o frio vai além da geada: a neve caiu sobre a cidade em agosto de 1965, em uma das nevascas mais extensas do Sul, e voltou a cobrir jardins e telhados na noite de 28 de julho de 2021.

Da colônia agrícola à indústria exportadora, alguns números ajudam a medir o tamanho dessa transformação:
Como uma oficina aberta em 1949 levou ônibus a mais de 140 países?
A virada industrial tem nome: Marcopolo. A empresa nasceu em 6 de agosto de 1949 como Nicola & Cia., fabricante de carrocerias ainda de madeira, e adotou o nome atual em 1971, inspirada em um de seus modelos de sucesso. Ao lado dela cresceram nomes como Randon e Agrale, que reforçam o peso do transporte na economia local.
Hoje, segundo a AutoData, publicação do setor automotivo, a Marcopolo está presente em 140 países, com três fábricas no Brasil, duas delas em Caxias do Sul, e oito no exterior, em lugares como México, África do Sul, Austrália e China. Em 2023, a companhia produziu 13,3 mil ônibus e respondeu por 49,2% do volume nacional, conforme a edição especial da revista AutoData sobre os 75 anos da marca. Na prática, quase um em cada dois ônibus feitos no país saiu da empresa.

Caxias do Sul está entre as 20 cidades mais competitivas do Brasil
Na edição de 2026 do Ranking de Competitividade dos Municípios, elaborado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), a cidade ficou em 20º lugar entre 423 municípios com mais de 80 mil habitantes, atrás de apenas uma cidade gaúcha. Com 65 indicadores de saúde, educação, saneamento e gestão, o resultado coloca Caxias entre os 5% mais bem avaliados.
No mesmo levantamento, o município saltou da 77ª para a 22ª posição nacional em qualidade da saúde em apenas um ano. A água é outro ponto forte: de acordo com o Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto (Samae), a cidade recebeu nota máxima em abastecimento no Ranking Nacional do Saneamento do Instituto Trata Brasil e está entre as 34 das 100 maiores cidades do país com 100% de água tratada no perímetro urbano.

O que fazer para sentir a herança italiana em Caxias do Sul?
O roteiro começa no centro, que cresceu em torno de uma praça planejada pelos colonos, e segue até a zona rural, onde capelas e parreirais mantêm a paisagem dos primeiros tempos. A Festa Nacional da Uva, realizada desde 1931 e hoje promovida a cada dois anos, transforma esse cenário em vitrine, com desfiles de carros alegóricos e distribuição gratuita de uvas.
Um roteiro entre praças, museus e mirantes
Alguns endereços concentram a melhor experiência para quem quer entender a origem da Pérola das Colônias:
- Praça Dante Alighieri: o espaço público mais antigo da cidade, previsto desde a fundação da colônia, fica diante da neogótica Catedral Santa Teresa, erguida a partir de 1895.
- Réplica de Caxias de 1885: casas que recriam a vila colonial dentro do Parque de Exposições Mário Bernardino Ramos, onde ficam os pavilhões da Festa da Uva.
- Monumento Jesus Terceiro Milênio: fica no alto do morro do mesmo parque, com acesso sem cobrança de ingresso e vista ampla da cidade.
- Monumento Nacional ao Imigrante: escultura em bronze de 4,5 metros assinada por Antônio Caringi e inaugurada em 1954 pelo presidente Getúlio Vargas, durante a Festa da Uva.
- Museu Ambiência Casa de Pedra: construção colonial do século XIX, a única do tipo que resistiu na área urbana, museu desde 1975.
- Estrada do Imigrante: a cerca de 10 km do centro, leva à zona rural entre capelas, pequenas propriedades e construções que preservam a presença italiana.
Quem sonha em conhecer a Serra Gaúcha, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal De fora em Juiz de Fora, que conta com mais de 140 mil visualizações, onde Tati Marmon mostra as atrações de Caxias do Sul:
Como é o clima de Caxias do Sul durante o ano?
Pelas normais climatológicas de 30 anos, as máximas médias ficam abaixo de 27°C mesmo no verão, enquanto as mínimas de julho giram em torno de 9°C. A chuva, de cerca de 1.800 mm por ano, se distribui de forma equilibrada entre os meses, sem uma estação seca definida.
Caxias do Sul em cada estação
Cada estação tem um ritmo próprio de temperatura e chuva:
Faixas baseadas nas normais climatológicas 1981-2010 do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). As condições podem variar entre os anos por fenômenos como El Niño e La Niña; para a previsão atual, consulte o Climatempo.
Uma serra que fala italiano e roda o mundo
Caxias do Sul une a memória de uma colônia agrícola ao ritmo de uma cidade industrial conectada a outros continentes. O frio de serra, as praças dos imigrantes e as fábricas exportadoras contam a mesma história de trabalho.
Você precisa subir a Serra Gaúcha, provar um galeto com vinho da colônia e conferir de perto por que a Pérola das Colônias parece pertencer a dois continentes ao mesmo tempo.
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