Morador deixa a bicicleta presa na grade do hall por alguns dias e, ao descer, descobre que o síndico mandou retirar o cadeado junto com objetos considerados abandonados
Código Civil permite ao síndico liberar áreas comuns, mas poucos dias parada não tornam a bicicleta abandonada, e o descarte pode gerar indenização
Você chega cansado, prende a bicicleta na grade do hall de entrada com um cadeado e promete levá-la ao lugar certo no dia seguinte. Passam três, quatro dias. Ao descer, a grade está vazia: o síndico mandou cortar o cadeado e recolher a bicicleta com outros objetos que considerou abandonados. A cena é comum em prédios e levanta duas dúvidas: até onde vai o poder do síndico e o que o morador pode cobrar.
O síndico pode cortar o cadeado de uma bicicleta no hall?
Ele pode exigir a retirada, mas com limites. O hall é área comum, e o artigo 1.331 do Código Civil separa as partes de propriedade exclusiva das partes de uso comum dos condôminos. A grade, o piso e a circulação do térreo pertencem ao condomínio, não a um apartamento.
Pelo artigo 1.335 do Código Civil, o morador pode usar as partes comuns conforme a destinação delas, desde que não exclua os vizinhos. Uma bicicleta presa por dias na entrada ocupa espaço de passagem e pode contrariar o regimento interno, sobretudo se o prédio tiver bicicletário.
Já o artigo 1.348 do Código Civil manda o síndico cumprir e fazer cumprir a convenção e o regimento e cuidar da guarda das partes comuns. Isso autoriza liberar o hall. Não transforma, porém, a bicicleta em bem do condomínio nem libera o descarte.
Alguns dias parada bastam para a bicicleta ser abandonada?
Não necessariamente. O artigo 1.263 do Código Civil trata da coisa sem dono, que passa a ser de quem se apropria dela. A lei não fixa prazo para que um objeto deixado em área comum entre nessa condição, e o cadeado indica justamente que a bicicleta tem dono.

Por isso, quem recolhe objetos considerados abandonados precisa separar o que foi largado do que só está fora do lugar. Uma bicicleta sem pneus, enferrujada e parada há meses é um cenário. Outra, em uso e presa com cadeado na mesma semana, é situação diferente.
A mesma dúvida aparece com outros veículos pequenos deixados nas áreas comuns. O caso de um patinete elétrico retirado enquanto o dono viajava mostra como o tema costuma ser tratado.
Síndico pode mandar retirar e jogar fora patinete elétrico considerado abandonado…➔
A convenção condominial dá as regras para o uso do hall
A resposta para cada prédio está na convenção condominial e no regimento interno. O artigo 1.334 do Código Civil determina que a convenção traga as sanções a que os condôminos estão sujeitos e o próprio regimento interno.
É nesses documentos que aparecem, em geral, o lugar das bicicletas, o uso do hall e as multas para quem descumpre. Se a regra não existe, a assembleia pode criá-la: o artigo 1.350 do Código Civil inclui a alteração do regimento entre os temas da reunião anual.
Mesmo com regra escrita, aviso afixado com data e prazo, fotos do objeto no local e guarda num depósito do prédio reduzem o conflito. Esses registros protegem o morador e também o síndico, que precisa demonstrar que agiu dentro do que a convenção autoriza.

Quem responde se a bicicleta some depois de ser retirada?
A cobrança é dirigida ao condomínio, que o síndico representa em juízo ou fora dele. O artigo 186 do Código Civil define como ato ilícito violar direito e causar dano a outrem, e o artigo 927 do Código Civil obriga quem causa o dano a repará-lo.
Se a bicicleta foi descartada, doada ou vendida sem prova de abandono, o dono pode pedir o valor dela. Ajudam nessa conta a nota fiscal, fotos antigas, imagens das câmeras do prédio e as mensagens trocadas com a administração.
Antes de recorrer à Justiça, a tentativa de acordo por escrito costuma ser o caminho mais rápido. O pedido deve trazer o que se quer, devolução ou ressarcimento, e um prazo razoável para a resposta.
Um pedido por escrito ao síndico é o primeiro passo do morador
Quem ainda tem a bicicleta evita o problema ao conferir no regimento onde ela pode ficar. Se o prédio tem bicicletário, a grade do hall de entrada deixa de ser opção. Se não tem, vale levar à assembleia a proposta de um espaço próprio.
Se a bicicleta já sumiu, protocole hoje com o síndico um pedido escrito e datado, perguntando onde ela está e qual regra justificou a retirada. Junte fotos e o comprovante de compra e guarde a resposta. Faça isso com calma: um papel bem guardado vale mais do que uma discussão no elevador.
Conflitos sobre o uso das áreas comuns também chegam à garagem. Um aposentado descobriu isso ao encontrar cortada a corrente que havia colocado na vaga.
Depois de colocar uma corrente na vaga, aposentado encontra o cadeado cortado…➔
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)