Cidade do Sertão que exporta frutas para mais de 50 países e movimenta próximo de US$ 1 bilhão
A agricultura transformou a economia de uma região marcada pelo clima seco
No imaginário nacional, o Sertão é sinônimo de terra rachada e espera pela chuva. Às margens do Rio São Francisco, em Petrolina, no interior de Pernambuco, a paisagem é outra: parreirais alinhados sob sol constante, pomares de manga e caminhões frigoríficos rumo aos portos. A troca de lugar entre seca e abundância começou com água bombeada e ciência aplicada.
O que fez o Sertão colher uva duas vezes por ano?
A resposta está em aprender a controlar quando a planta floresce. Instalada em 10 de março de 1975 na cidade pernambucana, a Embrapa Semiárido desenvolveu o uso de reguladores vegetais para induzir a floração da mangueira em qualquer época e adaptou variedades de uva ao calor da região.
Sem chuva para atrapalhar e com irrigação sob medida, o produtor define o calendário da colheita em vez de obedecer a ele. Enquanto a serra gaúcha colhe uva uma única vez por ano, o semiárido tira duas safras da mesma área, e o Submédio do Vale do São Francisco responde por 91% da manga e 98% da uva que o Brasil vende ao exterior, segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Para quantos países a fruta do Vale do São Francisco chega?
Mais de 50 destinos receberam a produção da região em 2024, movimentando cerca de US$ 1 bilhão em exportações, conforme a Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), que aponta a cidade pernambucana como o maior centro exportador de frutas frescas do país.
O desempenho pesa na balança nacional. A entidade registra que a fruticultura brasileira entrou em 2026 após o terceiro recorde consecutivo de exportações, com receita próxima de US$ 1,5 bilhão, e que os Estados Unidos responderam por 12% do faturamento das frutas brasileiras no ano anterior. No caso da manga, os americanos absorveram 14% do volume embarcado.
Que obra levou a água do rio até as fazendas do semiárido?
Uma rede de canais erguida pelo governo federal a partir do lago de Sobradinho. O Projeto Público de Irrigação Nilo Coelho entrou em operação em 1984 e reúne 18.667 hectares irrigáveis na concepção original, entre Casa Nova, na Bahia, e a sede do município pernambucano, conforme a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf).
O desenho social explica parte da vitalidade da região, porque 12.520 hectares ficaram com pequenos produtores, chamados localmente de colonos, e 6.147 hectares com empresas de portes variados, misturando lotes familiares e fazendas exportadoras no mesmo perímetro. Confira abaixo o que sustenta a produção nessa faixa do semiárido:
- Água do São Francisco: a captação no reservatório de Sobradinho garante irrigação nos doze meses do ano.
- Sol constante: a alta luminosidade acelera a maturação e favorece frutas mais doces.
- Baixa umidade: reduz a incidência de doenças de lavoura comuns em regiões chuvosas.
- Pesquisa aplicada: cultivares e manejo desenhados especificamente para o calor da caatinga.
Quem quer descobrir as riquezas e a força da fruticultura no Sertão, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Bruno Faustino – Negócio Rural, que conta com mais de 2 milhões de visualizações, onde Bruno Faustino mostra a produção de frutas e espumantes irrigados no Vale do São Francisco, em Petrolina – Pernambuco:
Por que a cidade lidera o ranking nacional do agronegócio?
Porque transforma safra em emprego e em receita externa na mesma cadeia. Petrolina ficou em primeiro lugar na categoria Agronegócio da edição de 2025 do ranking Melhores Cidades para Fazer Negócios, estudo da consultoria Urban Systems publicado pela revista Exame, que mede indicadores como geração de empregos, infraestrutura e ambiente de negócios.
Os números do campo confirmam a leitura. Somados, os perímetros Bebedouro, Nilo Coelho e Pontal colheram cerca de 914 mil toneladas em 25,8 mil hectares e registraram valor bruto de produção próximo de R$ 4,8 bilhões em 2024, com cerca de 73,3 mil empregos diretos, indiretos e induzidos, segundo a Codevasf. A fruticultura mecaniza pouco e depende de gente na colheita, na seleção e na embalagem, o que espalha renda pela cidade. É a mesma lógica de especialização que fez uma cidade industrial do Sul fabricar ônibus para mais de 140 países, só que aqui a linha de montagem é um parreiral.
Conheça o Sertão que virou vinhedo
A cidade pernambucana mostra que geografia difícil não é destino fechado. Com água captada de um reservatório, meio século de pesquisa e uma rede de pequenos produtores dividindo perímetro com fazendas exportadoras, o semiárido virou a origem de quase toda a uva que o país embarca para fora.
Você precisa conhecer Petrolina, provar a manga colhida na véspera e ver de perto um pedaço de Sertão coberto de parreiras.
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