Essa cidade industrial do Sul fabrica ônibus que circulam em mais de 140 países dos cinco continentes
A força da indústria local atravessou fronteiras e ganhou o mundo
Um ônibus urbano parado em Nairóbi, um rodoviário cruzando os Andes e um micro-ônibus escolar no interior do Egito podem ter a mesma certidão de nascimento. Caxias do Sul, na Serra Gaúcha, começou como colônia de imigrantes italianos que plantavam uva e virou a origem de carrocerias que circulam nos cinco continentes. A história dessa virada cabe em um galpão de esquina aberto em 1949.
Como uma oficina de 15 funcionários chegou a mais de 140 países?
Com a decisão de fabricar não só o veículo, mas a peça mais complexa dele. Em 6 de agosto de 1949, oito sócios abriram a Nicola & Cia. Ltda. em um pavilhão do centro caxiense, com quinze funcionários, para produzir carrocerias de ônibus, segundo o acervo Marcopolo Memória. Carroceria é a parte onde ficam bancos, janelas, portas e bagageiros, montada sobre o chassi de outro fabricante, o que permite adaptar o mesmo veículo a regras e climas muito diferentes.
Aquela oficina virou a Marcopolo, uma das maiores fabricantes de carrocerias do planeta, com unidades produtivas nos cinco continentes. Os veículos da empresa circulam hoje em mais de 140 países, conforme a sala de imprensa da Marcopolo. Parte deles nem sai montado do Rio Grande do Sul: segue desmontado em conjuntos e ganha forma final perto do comprador, solução que reduz frete e alfândega.

O que mais sai das fábricas dessa cidade da serra?
Bem mais do que ônibus. Segundo a Prefeitura de Caxias do Sul, o município partiu do cultivo da uva e do vinho para se tornar o segundo maior parque metalmecânico do Brasil, com indústrias que fabricam desde pequenas peças até caminhões. A semente foi a Metalúrgica Abramo Eberle, aberta ainda no fim do século XIX por imigrantes que traziam ofício de ferreiro e funileiro da Itália.
Essa base explica por que a cidade concentra marcas conhecidas em todo o país e sustenta a segunda maior população gaúcha, atrás apenas de Porto Alegre, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Confira os setores que sustentam esse conjunto industrial:
- Carrocerias de ônibus: urbanos, rodoviários e micro-ônibus, incluindo modelos elétricos e movidos a gás.
- Implementos rodoviários: carretas, reboques e autopeças que abastecem o transporte de carga nacional.
- Metalmecânico: ferramentas, máquinas e componentes fornecidos para montadoras de outros estados.
- Vinícola: cantinas e vinícolas herdadas da colônia, ainda ativas na zona rural do município.
Quem busca entender como uma empresa nacional se tornou referência mundial em mobilidade, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Elementar, que conta com mais de 308 mil visualizações, onde a equipe mostra a história de inovação da Marcopolo de Caxias do Sul:
Por que a uva continua batizando a maior festa da cidade?
Porque foi ela que sustentou as primeiras famílias antes de qualquer fábrica existir. A Festa Nacional da Uva chegou à 35ª edição em 2026, realizada entre 19 de fevereiro e 8 de março com o tema Fruto de um sonho imigrante, em homenagem aos 150 anos da imigração italiana no estado. O evento acontece a cada dois anos e já soma 95 anos de trajetória.
A escala impressiona para uma celebração de origem rural. Conforme a Prefeitura de Caxias do Sul, a abertura da edição mais recente reuniu autoridades federais e estaduais no Parque de Eventos Mário Bernardino Ramos, área de mais de 359 mil m² que também recebe feiras industriais. Uva e aço dividem o mesmo terreno, o que resume bem a cidade. É um trajeto parecido ao de outra cidade brasileira que transformou fruta em negócio de alcance mundial, no sertão nordestino.
Como é o clima de Caxias do Sul ao longo do ano?
A 817 metros de altitude, a cidade tem quatro estações bem marcadas, invernos com geada frequente e chuva distribuída por todos os meses, sem estação seca definida. Veja abaixo o comportamento típico de cada período:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes de viajar.
Uma cidade que exporta sem aparecer na etiqueta
Poucos passageiros do mundo sabem que o ônibus em que estão sentados carrega a assinatura discreta de uma cidade do nordeste gaúcho. A herança que começou com camponeses do Vêneto se transformou em engenharia de escala sem apagar o sotaque, o galeto e as cantinas de fim de semana.
Você precisa conhecer Caxias do Sul e ver de perto como parreiral e linha de montagem convivem no mesmo endereço, a pouco mais de duas horas da capital gaúcha.
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